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15/05/2014

Os Três Mal-Amados, José Cabral de Melo Neto


O amor comeu meu nome, minha identidade, meu retrato. O amor comeu minha certidão de idade, minha genealogia, meu endereço. O amor comeu meus cartões de visita. O amor veio e comeu todos os papéis onde eu escrevera meu nome.

O amor comeu minhas roupas, meus lenços, minhas camisas. O amor comeu metros e metros de gravatas. O amor comeu a medida de meus ternos, o número de meus sapatos, o tamanho de meus chapéus. O amor comeu minha altura, meu peso, a cor de meus olhos e de meus cabelos.

O amor comeu meus remédios, minhas receitas médicas, minhas dietas. Comeu minhas aspirinas, minhas ondas-curtas, meus raios-X. Comeu meus testes mentais, meus exames de urina.

O amor comeu na estante todos os meus livros de poesia. Comeu em meus livros de prosa as citações em verso. Comeu no dicionário as palavras que poderiam se juntar em versos.

Faminto, o amor devorou os utensílios de meu uso: pente, navalha, escovas, tesouras de unhas, canivete. Faminto ainda, o amor devorou o uso de meus utensílios: meus banhos frios, a ópera cantada no banheiro, o aquecedor de água de fogo morto mas que parecia uma usina.

O amor comeu as frutas postas sobre a mesa. Bebeu a água dos copos e das quartinhas. Comeu o pão de propósito escondido. Bebeu as lágrimas dos olhos que, ninguém o sabia, estavam cheios de água.

O amor voltou para comer os papéis onde irrefletidamente eu tornara a escrever meu nome.

O amor roeu minha infância, de dedos sujos de tinta, cabelo caindo nos olhos, botinas nunca engraxadas. O amor roeu o menino esquivo, sempre nos cantos, e que riscava os livros, mordia o lápis, andava na rua chutando pedras. Roeu as conversas, junto à bomba de gasolina do largo, com os primos que tudo sabiam sobre passarinhos, sobre uma mulher, sobre marcas de automóvel.

O amor comeu meu Estado e minha cidade. Drenou a água morta dos mangues, aboliu a maré. Comeu os mangues crespos e de folhas duras, comeu o verde ácido das plantas de cana cobrindo os morros regulares, cortados pelas barreiras vermelhas, pelo trenzinho preto, pelas chaminés. Comeu o cheiro de cana cortada e o cheiro de maresia. Comeu até essas coisas de que eu desesperava por não saber falar delas em verso.

O amor comeu até os dias ainda não anunciados nas folhinhas. Comeu os minutos de adiantamento de meu relógio, os anos que as linhas de minha mão asseguravam. Comeu o futuro grande atleta, o futuro grande poeta. Comeu as futuras viagens em volta da terra, as futuras estantes em volta da sala.

O amor comeu minha paz e minha guerra. Meu dia e minha noite. Meu inverno e meu verão. Comeu meu silêncio, minha dor de cabeça, meu medo da morte.

03/05/2014

Pista de pouso, amém.





Nesses dias, apesar de toda turbulência pela qual nossa aeronave atravessou, acho que a pressão diminuiu e podemos, enfim seguir adiante.

E nesses dias também, andava perdendo palavras a esmo no limbo da existência enquanto as mesmas precisavam estar em uma folha, num papel, numa tela. Mas não eram as dificuldades que me impediam de expelir manualmente todo sentimento que costuma existir nesse pequeno pedaço de ser que sou. Eram as alegrias, a falta de oxigênio motivada por um milhão de risos novos e diferentes a cada dia que me amarravam a não querer espalhar todo coração. Dizem que quando a felicidade é muita, ela é boa quietinha, calminha e que gritá-la aos quatros traz mal agouro. Por isso de tanto receio. Insegura que sou, quis manter toda a proteção perto de mim, de ti, de nós.

Acho que depois de todo esse tempo, não é mais pecado querer dizer todo o bem que me faz a tua presença, a tua existência, as tuas charadas com pontinhos que não tem sentido e nem graça, mas mesmo assim são as coisas mais bem elaboradas das quais eu já ri. Não, acho que as tuas caretas vencem. Ou o pombo que tira da cartola quando, em ataque, eu recuo. Tu tem magias que a própria magia desconhece. E mesmo em silêncio, dizes tudo e nada. 

Sinto por não conseguir ser mais que sou e por querer sempre te preservar intacto, indolor. Sabe, pequeno,  todos os meus erros sempre foram tentando acertar, mas meu comportamento desastradamente destrambelhado leva tudo pro final mais engraçado e diferente do planejado. E tu compreende que válida é a tentativa, então não e repreende, não me julga. E isso, acho, que meu nível espiritual nunca vai conseguir alcançar. Essa paz de que existe o amanhã pra tentar de novo, existe um outro amanhecer pra acreditar. Por vezes, tenho a impressão que me agarro tanto em ti que machuca. É que esse pra mim é um mundo tão novo, tão limpinho, que eu preciso conhecer como é que se vive aqui. E é um lugar quentinho... talvez o inverno não nos encontre aqui. Certeza que não.