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22/12/2012

Conclusividades.

Pelo direito de ser porralouca. Pelo poder sentar no chão sem que ninguém venha me dizer que não posso. Pela vontade saciada de ir e vir como bem entender. Pelo sonho de poder ser quem eu quiser, o que eu quiser. Pelo direito de ser mulher e não ser meiguinha, delicadinha, guriazinha. Até porque eu nunca o soube ser. Não sei ser fresquinha.

Quero poder gritar com quem dobra e não dá seta. Poder externalizar uma dor falando uma imensidade de palavrões. Aliás, me são como vírgulas e pontos finais, porra. Tenho um trato educado com as pessoas, sei ser simpática como ninguém. Como cerimonialista, eu sou ouro. Mas não me peça pra ser princesinha. Nunca foi minha diversão me imaginar Cinderela ou Rapunzel. Eu queria sim ser uma personagem da Disney: A Mulan. E dispenso explicações de porquês.

Quando criança, cansei de arrancar tampões do dedão jogando futebol. Eu sei brigar como homem. Conheço as regras do futebol, do UFC, do basquete e do futebol americano. Criei-me num meio masculino. Sou masculinizada. Mas isso não faz de mim um homem. Sou como qualquer outra garota, mas com uma pitada extra de testosterona. Sou forte feito um touro e sei revidar ofensas. Chorar por coisa pouca não é comigo, sabe?!

Mas não sou desleixada. Sei cuidar de mim, sei ser vaidosa. Quando quero. Quando vejo interesse e vantagem em ser assim. Não saio de casa sem maquiagem ou perfume. É minha lei estar minimamente apresentável. E meu sentimental é estupidamente ortodoxo.Tenho minhas quedas de abismo por um sorriso torto ou um olhar castanho que tome conta de mim e amarre meus braços. Não sou de pedra. Apenas não enxergo um sentido plausível para perder horas na academia enquanto eu posso estar subindo em uma árvore ou brincando com algumas crianças. Eu também não cresci, sou criançona, sim senhor. Aceite isso como um dado e não tente mudar. Sou divertida assim, gosto de mim assim, me transformo quando quiser. Fim.

Aliás, essa é uma das minhas características mais bacanas. Ser camaleônica. Ser o que eu me impuser ser. Ser mulherão. Ser garotinho mimado. Ser artista. Ser palhaça. Ser séria. Ser juíza da razão. Sei ser réu culpado em primeira instância e condenado a prisão perpétua. Geminiana. Explicação de toda a mudança e metamorfose.

Enquanto as outras fazem cursos de modelo, eu corro descalça por ai. Enquanto as outras tem aulas de boas maneiras, eu grito meus palavrões ao ar livre. Enquanto elas querem ser nutricionistas, bailarinas, eu quero ser soldado, marinheira. Quando elas deitam pra dormir, penteiam os cabelos e hidratam a pele; eu deito de qualquer jeito e ronco. Sou primitiva, sim. Sou mulher das cavernas. Entendam como quiserem, essa afirmação.

Enquanto as outras saem para as festas caçando, eu leio meus livros de ficção da época medieval. Muito mais divertido. Estranho? Talvez. Eu caço também, mas não faço disso minha razão de viver. Quando arrumo sarna, eu coço até ficar em carneviva. Não desisto.

Mas, pra finalizar. Enquanto as outras fazem de tudo para ficarem mais bonitas, eu jogo meu videogame. E afirmo com isso que eu sei ser mais feliz que elas. Com certeza.

18/12/2012

Ser ela. Ser ele. Ser eu. Apenaser.

E se eu dissesse que eu sou diferente? Que eu nado contra a correnteza, que eu não gosto do comum, que eu fujo do óbvio e que a contramão é o melhor caminho? Se eu contasse pra vocês que eu não sei ser igual a todos e que as crianças da escola só me fazem sentir pior, com todas as suas brincadeirinhas e preconceitos. Só porque sou menina e.. gosto de menina.

 Isso não é defeito. Isso não é doença. Isso não é uma escolha. Eu nasci assim, entendam!

 Querem calar minha voz e me impedir de lutar pelos meus direitos. Eu acho injusto. Querem "leificar" a minha cura, mas eu não leprosa pra fazer um tratamento médico. Eu sou gay. E não vejo problema nisso. Eu trabalho como qualquer outra pessoa. Eu sei sorrir como qualquer um. Minha constituição corporal é igual. Tenho os mesmos órgãos e sei pensar. Eu sou humana. Eu sou normal. Não admito que, por não ser comum, tratem-me como louca. Eu sou esperta, inteligente. Sei mais que muita gente. Minha cabeça é aberta, eu sei debater, argumentar. Não preciso levantar a minha voz para mostrar que estou certa, quando estou certa.

 Acredite em mim quando eu digo que isso pode acontecer com qualquer um, qualquer uma. Pode acontecer com seu filho. Você vai virar a cara para ele também? Mas você argumenta pifiamente "não, meu filho é/será bem educado". Ser gay não vai de educação, vai de mente. Você nasce gay. Ninguém se torna, você sempre é.

 Eu não peço que você me aceite. Eu não peço que você divida suas coisas comigo. Não quero mendigar nada. Eu não quero nada, além do que eu preciso para viver. Eu sou apenas mais uma das partes injustiçadas do mundo. E como todas elas, eu só exijo respeito. Respeito, sabe!? Quero somente que você ao cruzar comigo na rua, não me olhe com cara de desaprovação. Quero poder ir e vir, sem ter medo de morrer a qualquer momento. Quer apenas poder chegar onde quer que seja, e ninguém se afastar, só porque eu sou gay. Quero viver a minha vida de cabeça erguida, por ser o que sou. Independente de quem mora comigo. Quero poder ser o que eu quiser ser, sem que ninguém a ponte o dedo no meu nariz e diga que estou errada, que vou para o inferno... não, não, NÃO!

 Quero ser só, o que eu sonho ser. Cientista, escritora, economista, jornalista. Eu só quero ser eu. E viver, sem medo.

16/12/2012

Meu problema está em começar. Não importa o que seja. Um artigo, uma crônica, uma piada, uma vida, um esquecimento. Não sei agir junto a natureza sutil das coisas e partir do princípio certo de ser. É na confusão que eu me encontro e que busco justificativas para ir. Tenho sim dificuldade de dar o primeiro passo. Mas quando vou, é para não voltar ao início. Quando vou é adiante. Não costumo olhar
 para trás.
Cada um com a sua dificuldade. Eu me poupo da saída e penso. Outros não pensam, e saem. Esses quase sempre se perdem no meio do caminho, olham e voltam. Olhar para trás é pecado. Regredir. Ou vai ou fica. Impasse é coisa de gente fraca. E se for dar largada, em frente ou enfrente. Fugir, é atestado de fraqueza.

05/12/2012

Minha Infância Solitária

Fabrício Carpinejar


Eu era tão sozinho na infância que se aparecesse um fantasma pra falar comigo não ficaria com medo, mas conversaria com ele. Pediria para que a assombração não se assustasse, que saísse debaixo da cama, que viesse
 descrever os aborrecimentos e desabafar as circunstâncias da morte.
Puxaria uma cadeira para aliviar seu cansaço de atravessar paredes.
Se viesse arrastando correntes, abriria o cadeado com a chave pequeninha do porão, que funcionava maravilhosamente bem com fechaduras desconhecidas.
Olharíamos as ilustrações de Alice no País das Maravilhas e nadaríamos no lago de lágrimas da personagem.
Emprestaria um dos meus três abrigos escolares, afinal, os mortos costumam se vestir mal.
Iríamos juntos, de mãos dadas, para o colégio.
Dividiria minha Pastelina e meu Nescau.
Mostraria qual o banco de pedra predileto do recreio, com vista privilegiada das rodinhas das meninas bonitas.
Poderia chutar pinha no meio da rua: o bueiro seria o nosso gol.
Assistiríamos ao trânsito do banco de trás do Opala amarelo do pai.
Insistiria para a mãe preparar bolinho de arroz.
Ele me ajudaria a escalar árvores e muros.
Perguntaria se ele gostaria de brincar de gladiador com as tampas do lixo.
Teria alguém para andar de gangorra e fazer peso ao meu corpo.
Teria alguém para evitar o fim de pedra dos passarinhos.
Teria alguém para chorar a separação dos pais.
Teria alguém para me confortar nos exercícios de matemática.
Teria alguém que não me acharia estranho, esquisito, monstro.
Teria já alguém confirmado para minha festa de aniversário.
Eu seguraria o botão do bebedor enquanto ele se curvaria ao esguicho.
Ele me avisaria das pedras irregulares da praça.
Jogaríamos miolo de pão para as pombas.
O fantasma seria meu amigo predileto, meu confidente, meu guia de estimação. Muito melhor do que amigo imaginário – ostenta mais experiência.
Jamais recusaria sua visita.
Só esnoba o invisível quem não é carente. Sempre fui faminto de acontecimentos. Sempre fui ouvinte porque não tinha com quem trocar confidências até os oito anos.
Escutava vento, escutava chuva, escutava até o sol.
Vivi um claustro involuntário. Fui um monge mirim. Meus olhos cresceram pelo excesso de palavras por dizer.
Nunca desperdiçaria a chegada de um fantasma. Salvaria a minha solidão.

20/11/2012

Pequena, espera...



... e escuta.

Eu sei que essa não é a melhor hora para falar disso, só que já passou tempo demais e agora tá quase que insuportável continuar segurando essa sozinho.
Olha, eu sei que eu nunca fui um exemplo de cara por quem as garotas se apaixonam e claro, você não seria uma exceção. Afinal, eu tenho minhas manias e vícios. Minha falta de sociabilidade me impede de ser uma pessoa comum. Mas mesmo assim tento. Eu nunca abri mão de buscar o que sonhei por ser meio calado e agora, é outra vez que eu vou tentar vencer meu medo do fracasso. Aliás, medo não. Medo eu teria se fosse um covarde e deixasse as coisas fluírem sós. Eu não tenho medo do fracasso, porque eu sei que buscar conseguir é a maior vitória.

Mas o que eu queria de verdade te dizer era, desde a primeira vez que você me deu um abraço, eu nunca mais deixei de pensar em outra coisa. Mostrou-me que eu precisei experimentar a frouxidão de tantos outros para enfim encontrar a segurança exata nos teus braços.

Li. Ve.



Tô me refugiando nos meus livros, nos meus discos, na minha solidão. 
Tô aprendendo a erguer a cabeça depois do não e a limpar os joelhos depois do tombo.
Tô deixando pra trás tudo aquilo que me prendeu.
Tô querendo, sabe. Querendo mais, querendo muito. Querendo querer. 
Fechar os olhos, fazer um pedido e soprar, fazendo as cípselas seguirem com o vento.
Tô pro meu sonho. Tô pra minha ânsia. 
E sem pessimismos, um dia sai do papel. E vira, papel.

31/10/2012

Voar. Vou, ar.


Então você descobre que não vale a pena se doer. Que não vale a pena chorar e sofrer por nada.
Porque amanhã o sol vai nascer novamente. Porque as crianças vão continuar a sorrir nos parques, brincando nos balanços e com o vento batendo em seus cabelos.
Porque não existe nada que o tempo não cure. E também não existem palavras que não acalmem.
A vida é um eterno entre vírgulas, você só precisa saber qual o vocativo que chamar no momento.
Agora, o que antes chamava dor, hoje eu chamo mudança, cicatrização. Amanhã quem sabe, paz.


30/09/2012

In Compatibilidades.

Eu preciso te tirar do sério.
Fazer-te rir um riso fácil com uma história qualquer sobre a banalidade de existir. Preciso ver a intensidade brilhar viva em teus olhos castanhos sempre tão alertas.

Eu preciso te tirar a sanidade.
Quero forçar-te a gritar todas as dores e medos que possam querer te assustar nas madrugadas frias e sozinhas quando a solidão não ter o tom para você a acompanhar. Te fazer ter vontade de escalar o Everest com as mãos e apenas com elas. Sem aparatos, equipamentos. Suas mãos sendo seu destino. Suas mãos, sua salvação ou morte.

Eu preciso te tirar a roupa.
Rasgar tua pele, sentir teu cheiro. Encontrar-me em ti e ter a certeza de que é ali o refúgio do coelho do relógio e do gato sorridente que cisma em aparecer em meus sonhos sem me dizer nada. Fugir da frugalidade e por um instante, sair de si. Ter a convicção de que gritos serão soltos, que a sanidade assistirá a tudo de longe e assustada e, os risos no acompanharam em cada segundo.

Eu preciso te tirar a alma.
Te despir dos seus (pré)conceitos, te deixar limpo de teses e teorias metaforizadas e insuficientes. Abrir seus olhos e te fazer enxergar que a vida vai além do quinto andar.

Eu preciso te tirar daqui.
Eu preciso te tirar da dança.


Eu preciso, te tirar de mim.

23/09/2012

Se. Para. Ações.

Para ser lido ao som de November Rain 


A cada hora que passa é mais difícil viver aqui. Essa casa tem todas as suas características, desde o fundamento até a decoração. Cada cantinho, cada manchinha de umidade tem pedaços seus. Não entendo porque teve que partir. Era tão cedo, você deveria ter feito mais gente sorrir. Na flor da idade, foi para nunca mais voltar. E eu, que te esperei por tanto tempo, ver-te partir assim faz-me perder toda a esperança que o mundo pode ser melhor, perder a vontade de ver as flores desabrocharem coloridas na primavera.

Hoje eu desaprendi a sorrir. Não tem mais graça sem você aqui, as coisas não dão liga, o sentido foi junto com seu lindo par de olhos. Sinto falta de seu gritar no amanhecer, sempre cheio de alegria e vitalidade. Você era um rapaz lindo e eu morria de ciúmes de toda e qualquer garota que pudesse se aproximar. Quando eu te dizia isso, pegava-me no colo e ria, um riso gostoso que vai ficar em minha memória pela eternidade.

Suas fotos ainda estão por todos os lados dentro desse lar. O nosso lar. O seu quarto, intocado, jaz assim tal como você o deixou. Com a estante de livro com faltas e seu maior orgulho em cima da cama. A guitarra que tanto incomodava o vizinho do 302, hoje também está calada, de luto. Acho que ela vestiria preto se pudesse. Garoto, você era tão bom com ela nas mãos. Seu solo de "November Rain" era melhor que o do Slash. Mas eu nunca gostei de rock. Contudo, sempre amei muito você.

Nesses últimos dias, eu não consegui dormir e voltei a fumar descompassadamente. O Jack Daniels está pela metade e o Cuervo não existe mais. E o chão da sala, repleto de papéis com declarações, composições e lágrimas. Mas não existe melodia para essa dor. Vermelha. Acho que a mesma cor pode significar coisas diferentes, mas coligadas. A dor e o amor quase sempre andam juntos., então minha teoria está correta. Só se doí por aquilo que se ama. Ou pelo que se imaginou amar. De qualquer forma, dor e amor são irmãos gêmeos, siameses pelo braço.

Sabe, eu te amei demais. Mesmo antes de conhecer-te, eu já te amava. Mesmo sozinha, eu te amei. Enfrentei tudo por você. E enfrentaria o que mais fosse preciso, porque quando ouvi sua voz pela primeira vez, soube que todo o esforço tinha valido a pena. E seguiria valendo para sempre. Eu te ensinei tudo que tinha e aprendi tanto também. Quis te proteger do mundo, mas você criou asas. E aprendeu a voar. E seus rasantes me davam medo; você era tão esperto e eu tinha tanto receio de um dia te perder. Dizem que quando a gente teme algo, isso acontece mais rápido. Pude comprovar da pior maneira possível a veracidade da frase.. Temi. Perdi. Se antes  eram dois contra o mundo, agora sou eu contra a doe e solidão.  Você me deixou. Gostou de voar.

16/09/2012

Nota de Rodapé


Sobre querer ou não, eu me abstenho. Vou conforme a música e que a melodia me leve. Leve. Eu não tenho intenção de ficar. Se quiser, você pode me acompanhar. Pode seguir meu ritmo e dançar meu tango. Caso contrário, continue com sua salsa. Seu merengue. Só não me imponha um espetáculo coreografado que eu não sei (se quero) fazer. 


13/09/2012

Winter


Ela sorri desajeitadamente. Um sorriso torto de quem tem vergonha de mostrar-se ao mundo. Mas disfarça bem. Tem muitos amigos, vai à festas, está sempre acompanhada. Mas no clarear do dia, quando os sapatos de saltos trocam de membros e ela chega em casa, o delineador que tão bem marcava seus olhos verdes escorre, manchando todo o seu rosto que agora vermelho sente-se mal.

Ela é uma rainha, mas não sabe. Sente-se sozinha a todo e qualquer momento. Acha que não sabe ser feliz. É uma prisioneira do passado, um passado que constantemente grita ao seu ouvido as mesmas frases que seus colegas da escola primária lhe diziam. Perdida, isolada. Quer correr, mas não tem forças. Não sabe levantar a voz. Sente-se mal. Lembra o passado. Era uma criança que não sabia defender-se. Ouvia e aguentava toda aquela humilhação calada, não reclamava. Não podia se dizer que era fraca, pois ninguém nunca a viu chorar por isso. Mas isso era tão corriqueiro. Quando chegava em casa, sua mãe não entendia porque tanta lágrima, tanta dor. Por vezes, implorava que a mãe ficasse ali. Precisava de sua mão e sua presença, ao menos por alguns instantes, para que pudesse ficar em paz. Sua mãe não a compreendia. Sua mãe não a compreende. Sua irmã não a compreende. Ela é marcada, mas ninguém se importa.

Então exagera. Exagera na cor. Exagera no tom, no som, no dom. Precisa de alguém que a enxergue, não que a veja apenas. Quer provar a todos que sua essência vai além da negritude que contorna seus olhos e das palavras que fluem de seus pensamentos e que ela não sabe organizar em frases. Um infinito de estrelas sem constelações, mas que mesmo assim iluminam o céu. Procura a ursa-menor, mas não lhe é essa. Não compreendeu que seu destino é ursa-maior. Tão grande. Grande como sua alma, como a sua calma. Que ela esconde. E personifica seu ser em ser louco. E canta. E ama. É contraditória e sabe. Detesta ser assim. Mas, o que se há de fazer?

Espera que algum dia, alguém lhe acolha. Escolha e recolha suas cicatrizes para curá-las. Alguém que lhe explique, com um carinho fraterno, que é tão normal ficar assim, perdido. Que saiba secar suas lágrimas com afeição e abraçá-la, acalmando-a com um chavão. "Vai ficar tudo bem!". Ela sabe que sim, só que esse ficar bem demora tanto para chegar para ela. Mas ela espera. Espera.



09/09/2012

Sofreguidão

Rasga perto um grito mudo de um solitário. Quem seria ele que não se contém em desespero e chora? Um som ensurdecedor que não se ouve, sente-se na alma e esmiúça o peito de tanta dor. É uma dor cega, uma dor surda. Uma dor com requintes de crueldade sonífera. Uma corda emaranhada entre os braços e pernas e pés, uma mordaça impedindo. Quem é?

07/09/2012

Revés



Escrevi mais um texto carteado. Uma quase carta. Um amontoado de palavras cheias de algum sentimento qualquer que pode e deve ser ignorado. Uma coleção de letras unidas em letra cursiva desenhada e bem legível.
Uma canção melodiosa e ritmada que não pode ser dançada porque não existe som. Mas mesmo assim, eu danço no som do silêncio.
Um conjunto verbal que mais parece desenho pintado com giz de cera. Riscado, rabiscado, um rascunho que não vai ser passado a limpo. E que implora para chegar ao seu destino. Mas eu me angustio em pensar nisso.
Quero. Não quero. Quero. Não devo. Quero. Não posso. Quero. Vou morrer de arrependimento depois.
Fico nesse impasse e não decido. Mas não vou mandar. Vai ser outra pra aumentar a pilha de cartas covardes. Covardes assim como eu, tão ausente de sentimentos taciturnos e cheia de medos banais. Medos que não saem com banho quente ou com uma dose alta de álcool. Eles são tatuagens feitas com ferro quente. Marcando a pele e mostrando para todos sem que eu necessite abrir a boca que sou desistente.
Sempre abro mão de tudo que sonhei. E essa outra carta é mais um tijolo nessa construção já tão bem fundamentada.


22/08/2012

Declames Lúdicos de Uma Mulher Folhetim


Eu não quero acordar todo dia ao teu lado e ver tua cara de sono. Eu não tenho a intenção de ser classificada como a mulher da tua vida, como aquela que mataria e morreria por você. Sua mãe faz esse papel melhor por você que qualquer outra pessoa. Deixo-o com ela então.

Não quero contratos. Não me vejo em frente a um líder religioso vestindo branco e afirmando positivamente. Nunca me vi. Não me verei. Ao menos por um bom tempo. Não sou Amélia. Não sou Poliana. Sou realista e sei que absolutamente nada durará para sempre.

Não quero te esperar com o jantar feito todas as noites numa cozinha gelada com um sorriso palidamente amarelo.

Eu sei, meu bem. Você nasceu para ser livre. Teus olhos te acusam e não recuam. Assim como eu também nasci para ser livre. A constituição nos iguala para ir e vir. Todos somos o que queremos ser.


Eu quero ser isso. Apenas.

Mais uma das musas sem nome de Chico.

Aquela que não vai saber te dar carinhos assim que amanhecer. Aquela que quer ver sua escova de dentes solitária. Aquela que dança sem limites, que grita sem limites, que sonha sem limites. Aquela que pode te fazer feliz, mas que não tem paciência para tal.

Eu posso sim, mudar de ideia. Eu posso escolher o caminho da direita. Eu posso me submeter a ser a última expressão "sim senhor" algum dia. Mas não hoje. Hoje não é o dia de tomar juízo. Hoje não é o dia de ser um embaço. Hoje é um bom dia. Um dia pra ir para um bar. Beber. Rir. E te dizer sim. Esse é o meu papel. Eu sempre te direi sim. Eu sempre vou querer sentir teu abraço. Seu bafejar na minha nuca. Sentir teu cheiro de café passado impregnado em mim. Mas só.

Sem promessas. Sem futuro. Só presente. Até o sol nascer. 

15/08/2012

Equiparações.


Primeiro a queda. Na verdade, primeiro é a pressa a corrida. Depois vem o tombo. E é desses que te quebra todo. Desses que nenhum ossinho fica no lugar. Rala o coração, esfarela a esperança e te deixa apenas em pó.
Mas uma coisa permanece intacta, intocável. O sonho. Esse nada afeta. Nesse ninguém mexe, nada abala. Ele é quem te reconstrói. Ele que te te motiva a juntar cada caquinho perdido por entre as frestas da decepção e te faz vivo. Que te sussurra ao pé do ouvindo "Levanta devagar, mas fica de pé. Agora, com calma inspira, isso. Agora expira. Boa garota! Isso mesmo! Repete. De novo.".
Te reestrutura.
E te faz fôlego.
E te faz sobre a vida. Te dá sobre vida.
Te olha com olhos de criança travessa, pronta pra te pegar pela mão e te levar. Correndo por outros caminhos, outros nomes, outras cores. E se cair, repete. Te ajuda.
Teu sonho é teu companheiro eterno. Aprende.

02/08/2012

Pró - Emocional



Porque quando a batalha é boa, não nos importa o preço do armamento e munição. Não importa o tempo que vai levar até o fim. Até porque uma boa briga, dessas que valem a pena lutar, das que o único objetivo é sair vitorioso, essas brigas nunca tem fim. Tem pausa. Mas final de verdade, não existe.
Eu tinha uma batalha dessas pela frente. Cair e levantar com cortes, eram convicções ratificadas em minha mente. Eu queria e não largaria a espada por qualquer que fosse a adversidade. Sabia que a única maneira que pararia de digladiar, seria saindo com êxito e troféu.
A única coisa que eu não tinha certeza era se aquele esforço seria válido.


E se valeria a pena.






30/07/2012

Segundas Filosofias.

Luto.


Por todo colorido transformado em preto e branco pelo ardor da vida.
Pela ausência de gracejos que fomos obrigados a aceitar como consequência de ter crescido.
Por toda a tristeza no olhar inocente de uma criança que perdeu os pais num acidente de trânsito.
Pela crueldade com que as flores são tratadas pelas mãos daqueles que não tem tato para lidar com tal fragilidade.
Pela essência que as pessoas tem perdido diante do tempo que não existe e que mesmo assim asfixia.
Por não mais sorrir.
Pela alegria cada vez mais rara, pelo amor cada vez mais escasso, pelo perdão sempre tão trancado, pela emoção tão endurecida no peito da gente.
Pelas lágrimas que não correm, pelo grito que não ecoa, pela vontade que se perdeu, pelo sonho que mataram.
Pelo ódio que aflora, pela música que não se pode mais cantar, pelo brilho dos olhos que desapareceu, pela simplicidade de se saber feliz.
Pela brigas que a gente perdeu, pelas vitórias que a gente nem sabe que foram vitórias, pelo sofrimento que nos ensinou a como não repetir atos. Ou a como repetir tentando até desaparecer.
Por todo coração gelado que não sabe o que amar.
Luto. De coração.
Luto para que mude. Luto para que possamos um dia aprender a ser além dos rótulos ou das dores.

Lutarei.


25/07/2012

Pré Ocupações e Queda Livre


E do que adianta acordar todos os dias e saber que tudo vai continuar sendo a mesma monotonia de sempre? De que adianta as pessoas olharem nos meus olhos com uma superficialidade felina e dizer que vai ficar tudo bem, se sei que não é verdade?

Eu realmente queria saber que um dia as coisas darão certo. Mas por favor, não peça pra que isso seja hoje. Não peça pra ser amanhã. Eu não sei quando vai ser. Enquanto isso não acontece, eu vou seguir levantando da cama, tomando meu banho e me obrigando a colocar um sorriso - falso -  no rosto para poder ser feliz, como exige essa sociedade de moral caída.

Não quero saber se a Ana tá namorando. Se o Pedro tá namorando. Se a Clara se assumiu. Foda-se isso tudo. Ninguém liga pro que eu sinto, por que eu deveria me importar com o sentimento alheio? Não. Não, muito obrigada, mas não.

Queria mesmo era poder ficar com as janelas da casa fechadas, com Renato e Maysa cantando incansavelmente na minha vitrola, aninhada no meu travesseiro e absorta do mundo. Não quero saber se a China virou potência, não quero saber se o Brasil perdeu a Copa, não me importa saber que inventaram a cura para a gripe A. Me importa minha cama. Me importa otimizar minha dor. Me deixem vivê-la, eu quero vivê-la. Não me exijam um padrão de vida que eu sei, não vou conseguir suprir.

Só por um momento eu queria poder deixar de existir. Queria poder ao extremo de ir mais longe, mais fundo. Esquecer e ser esquecida. Sair do meu mundo quando bem entender e tiver vontade. Mas não. Não me esquecem, não me deixam esquecer. Me jogam a pior notícia na cara todos os dias e esperam que eu reaja bem. "Ele tá namorando... e não é você". Eu já sei disso. Eu já sei que mais uma vez criei um mundo fantástico e ele que ele se despedaçou outra vez. "Ele tá namorando... e não é você". E querem que eu sorria a cada vez que, com olhar de pena, esses estúpidos me dirigem a palavra. Esperam que eu chore, esperneie. Mas não. Muito obrigada.

Eu não vou chorar. Eu não vou morrer. Não vou incitar nada, provocar nada. Mas também não esperem que eu levante a cabeça no dia seguinte. Tenho o direito de celebrar os três dias de lutos obrigatórios que meu coração merece. Eu sou dissimulada o suficiente a ponto de entregar meu peito ao abate e depois lhe dedicar uma oração.

Mas de verdade, me deixem aqui. Me deixem com Renato, que vai cantar em looping infinito juntos aos meus ouvidos meu pedido maior pro mundo (Só me deixe aqui quieto, isso passa), deitada no escuro. Eu fico bem assim, não é preciso preocupações.

Doravante, não sei. Procuro nem. Porque de dor, eu prefiro - e preciso - viver a presente. O resto depois vem. Na hora certa vem. E saberá ser bem aproveitada.  


24/07/2012

Cadências


Todas as melodias se foram junto com o teu perfume de café. E hoje eu choro por lembrar cada pedacinho de mim que ficou preso no teu corpo. Pedacinhos que você nem percebe. Fios de cabelos, risos frouxos, lágrimas avulsas. É, eu sei. Insignificâncias que pra mim, foram os trechos do ano que reverberaram-me. Fragmentos de uma vida. Um brilho, que como estrela, fez-se cadente. E se apagou. E morreu. E pôs fim, enfim, em toda a alegria que existiu em mim.

16/07/2012

Imprecisões





Se eu soubesse, não haveria graça, gracejo.
Se eu soubesse, seria frio. Seria inverno em mim, assim.
Se eu soubesse, fugiria pra distante, avante.
Mas eu não soube, não sei, jamais saberei.
E disso me faz por fim, não caber em qualquer botequim.


08/07/2012

Fugaz Instantâneo




Um café quente, um abraço forte. Não necessariamente nessa ordem. Não precisamente assim. Talvez um abraço quente e um café forte. Ou talvez ambos sendo ambos. Fortes e quentes. Extremos separados pela distância e unidos pela vontade. Quem dera eu pudesse voar por ai, encontrar-te onde quer que fosse e roubar-te. Fazer-te repousar em meus braços e para sempre ter o deleite de ter-te comigo. 


[texto pensado, inspirado e destinado a caipira mais gostosa desse planeta].


07/07/2012

Prólogo

Dizem que os homens usam as drogas com o intuito de fugir dos seus problemas. De fato, os percalços somem depois de uma ou outra dose e tudo se transforma em alegrias.
Mas eu não compreendia em totalidade esse sentimento de completude momentânea. Só depois de algum tempo que o entendi. Foi quando senti pela primeira vez seu abraço forte e quente sem nenhuma proteção têxtil. Nesse momento, aterrorizada, tive de aceitar a afirmação: ele era uma droga. A pior. A mais nociva de todas.




E a minha preferida.


30/06/2012

Interpendências



Liga o foda-se e vai ser feliz. Nenhuma opinião pode ser mais importante que a sua. Nada vale mais do que os seus princípios e conceito. Sua concepção de vida é o que te guia para qualquer lugar e não te deixa esmorecer. Você é quem você tem quando o mundo desaba. Você é que se cuida quando todos te viram as costas. Então respira fundo e vai correr por entre flores, garota!
Ninguém pode te dizer o que é certo ou errado. Ainda mais quando a petulância e arrogância dominam. Garota, o que você é, é divino. É único. Não se desperdice, não se desgaste. Estúpidos existem em todo canto que você colocar os pés. Cabe você mesma decidir, se deixará eles te abalarem. Ou não.



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Meus méritos, meus prêmios podem me ascender social e financeiramente. Um alvo bem tentador, quiça um sonho almejado por muitos. Mas observemos por um outro lado. Se o foco for apenas esse, esforço apenas para conseguir méritos que me resultarão em prêmios físicos, materiais e me deixar sem tempo pra aproveitar tudo que a vida me proporciona? Desculpa, prefiro ser medíocre o resto da vida. Se é que ser medíocre é rir com vontade de uma coisa realmente engraçada, chorar ao ver o quanto a vida é injusta as vezes. Admirar belezas que se me esforçar para conquistar títulos (pss..), serei impedida de ver. Minha família é um prêmio. Meus amigos são prêmios. Minhas paixões são prêmios. Prêmios pelos quais eu não precisei enlouquecer pra conquistar. E eu não preciso de nenhuma empáfia ou erguer meu peito como um galo de rinha para me orgulhar disso.
Wannabe sonhadora? Talvez. Mas prefiro acreditar que, no fim, todos terminaremos da mesma forma. Um pó. Titulados ou não.



20/06/2012

Definições



Quem me olha, sabe que é exatamente isso.
Sou dona das caras e caretas mais absurdas do mundo.
Sou essa loucura fantasiada de diversão.
Sou esse misto de não querer ter crescido com uma vida estressante de ser adulta.
Sou o sim e o não transfigurados em talvez.
Sou o erro exato de não ter vontade de acertar.
Sou e me basta apenas ser o quê.
Sou doida. Sou sério. Sou anjo. Sou demônio. Sou mulher.
Sou tua.


17/06/2012

Almas Perfumadas


Tem gente que tem cheiro de passarinho quando canta. De sol quando acorda. De flor quando ri. Ao lado delas, a gente se sente no balanço de uma rede que dança gostoso numa tarde grande, sem relógio e sem agenda. Ao lado delas, a gente se sente comendo pipoca na praça. Lambuzando o queixo de sorvete. Melando os dedos com algodão doce da cor mais doce que tem pra escolher. O tempo é outro. E a vida fica com a cara que ela tem de verdade, mas que a gente desaprende a ver.

Tem gente que tem cheiro de colo de Deus. De banho de mar quando a água é quente e o céu é azul. Ao lado delas, a gente sabe que os anjos existem e que alguns são invisíveis. Ao lado delas, a gente se sente chegando em casa e trocando o salto pelo chinelo. Sonhando a maior tolice do mundo com o gozo de quem não liga pra isso. Ao lado delas, pode ser abril, mas parece manhã de Natal do tempo em que a gente acordava e encontrava o presente do Papai Noel.

Tem gente que tem cheiro das estrelas que Deus acendeu no céu e daquelas que conseguimos acender na Terra. Ao lado delas, a gente não acha que o amor é possível, a gente tem certeza. Ao lado delas, a gente se sente visitando um lugar feito de alegria. Recebendo um buquê de carinhos. Abraçando um filhote de urso panda. Tocando com os olhos os olhos da paz. Ao lado delas, saboreamos a delícia do toque suave que sua presença sopra no nosso coração.

Tem gente que tem cheiro de cafuné sem pressa. Do brinquedo que a gente não largava. Do acalanto que o silêncio canta. De passeio no jardim. Ao lado delas, a gente percebe que a sensualidade é um perfume que vem de dentro e que a atração que realmente nos move não passa só pelo corpo. Corre em outras veias. Pulsa em outro lugar. Ao lado delas, a gente lembra que no instante em que rimos Deus está dançando conosco de rostinho colado. E a gente ri grande que nem menino arteiro.

[Ana Jácomo]

PS. O texto completo se encontra aqui.

Larissa



Menina do vestido florido
Porque choras um choro copioso
Vivendo um sonho colorido
Fugindo de um mundo furioso

Explica qual a sua dor
Onde caiu na fossa
Onde desistiu da cor
Onde parou sua bossa

Vê se procura um bom motivo
Para um novo amor
Que seja perfeito em flor

Busca um carinho quietinho
Onde deixe quentinho
O seu coração sozinho

03/06/2012

Encantos



Ela parece uma menininha boba, enquanto solta sorrisos avulsos pro vento.
Quem sabe não apenas pareça, que saiba ela não é uma menininha. Mas não boba e sim uma espertinha que descobriu que a sua esperteza não lhe adianta de nada, só a atrasa.
Ela está assim agora porque regou o jardim, chegou o verão e os pássaros migraram de volta.
Quem sabe por ter feito dessa vez, sem esperar realmente que eles chegassem. Sem intenção de fazer eles se achegarem. Fez apenas com o intuito de cuidar apenas. De ver a vida florescer e crescer a sua volta.
Ela hoje, assovia canções que antes não conhecia e nem fazia questão. Músicas que falam de um amor puro. Um amor por si.
Quem sabe foi isso que o fez vir até ela. Com seus erros maiúsculos e um pequeno grande coração. Quem sabe tenham se encontrado por obra do destino. E se esse encontro já estivesse escrito com caligrafia bonita nas linhas tortas dos dois, quem impediria?
Ela não sabe o que esperar hoje. E na verdade, nem faz questão de saber. Até prefere não conhecer, porque ela sabe que esperas quase sempre geram ilusões Dessa vez quer seguir cada linha do poema na entoação correta. Quer fazer com que seja bom porque é especial e especial porque é bom. Quer poder entufar o peito e se orgulhar de um dia poder fazer alguém feliz. Além de si.


A Menina Que Roubava Livros (II)


No começo, Liesel não conseguiu dizer nada, Talvez fosse a súbita turbulência do amor que sentiu por ele. Ou será que sempre tinha o amado? Era provável. Impedida como estava de falar, desejou que ele a beijasse. Quis que ele arrastasse sua mão e puxasse para si. Não importava onde a beijasse. Na boca no pescoço, na face. [...]


29/05/2012

Certas Promessas..



Um dia, sentada numa mesa de bar, eu jurei para todas as amigas que estavam comigo que eu deixaria de ser boba e passaria a usar, assim como usaram-me sem dó. Que faria jus a máxima de que se a gente pisa, a pessoa gruda. Mudaria radicalmente o comportamento e seria mais uma entregue a biscatagem.
Mas um dia de acaso, encontrei seus olhos exatos e abraço quentinho. Típico de onde você vem. Com um sorriso tão bonito e palavras tão afáveis. Encanto imediato. Foi nesse instante que percebi que juras de bêbada são como promessas de ano novo: impossíveis de cumprir.

26/05/2012

ATE 2011/2014: Porque a História Não Termina No Tchau

Há cerca de seis meses, escrevi uma carta aberta de despedida àqueles que me acolheram, suportaram, aguentaram durante aquele ano tão maravilhoso que pudemos dividir todas as noites. Escrevi que os amava muito e estaria sempre ali, embora estivesse deveras longe.

Pois bem, estou aqui hoje, para dizer que sou uma desistente de sonhos e explicar o porquê. Antes que alguém aponte o dedo e me chame de covarde, deixo-os de sobreaviso que não é necessário, mas sinta-se a vontade se o quiser fazer. Não vou repudiar ou dizer o contrário, até porque ir contra o óbvio é ilusão. Ladrei demais e perdi a oportunidade de morder a segunda chance que eu ganhara naquele momento. No entanto, entendi que não seria o meu lugar. Por que haveria de me empenhar em fazer algo que eu já sei tão bem? Predestinação? Talvez, se eu acreditasse. E cresci o suficiente para poder erguer a fronte e enfrentar a estrada mesmo com pedras me fazendo cair durante o percurso.

Fiquei. Outros se foram. Ousaram querer e foram atrás, e agora, são mais felizes distantes. Ou não. Alguns permaneceram, o que é regra natural. E me alegra saber que também seguiram a amadurecer. Seguiram inocentes. Seguiram bravos. Seguiram companheiros. E até os que seguiram arrogantes me alegram. Fico feliz em ver tudo no mesmo lugar, a estante de bagunça organizada. Tudo no seu devido cantinho. Heterogêneos como sempre, divisíveis como nunca. Não digo que todos se tornaram maleáveis, mas a maioria passou a ouvir ao invés de somente escutar. Alguns continuam fúteis e intragáveis, mas é até engraçado vê-los assim, tão cheios de si e vazios de razão.

 Os meus continuam sendo "os meus". Desligados, realistas, engraçados, centrados, preocupados, irritados, próximos. Seguem as mesmas pinturas em quadros mais bonitos. Não há como explicar tal relação. Não há como entender. São, se tornaram partes intrínsecas de meu corpo. Sua distração e animação me contagiam, envolvem e divertem. E o melhor: sem esperar nada, absolutamente nada em troca. Um alívio. Porque entendo que minhas piadas, sorrisos e palavras não são o suficiente para poder retribuir tanto bem que me fazem. Principalmente quando incitam-me a continuar, impondo como um desafio. Nada paga o que eles me fazem sentir quando perto, longe, bem ou mal. Num todo miscigenado em tons coloridos de diversidade. Embora as normais, esperadas e comuns desavenças, todos se unem quando o interesse é mútuo e beneficia. Não importa a forma, o importante é que juntos somos melhores. Já disse isso uma vez e repito até a exaustão se preciso. Somos ótimos quando um.

Há também os que entraram agora. Que entre seus erres puxados e esses chiados ainda não se acostumaram com a briga pelotense e a loucura econômica. Tão distintos em sua mistura que encanta ao pronunciar de cada palavra. Os gaúchos que me perdoem, mas (depois do nosso sotaque tão carregado) nada é mais bonito que um sotaque interiorano ou capital de fora. Lindos em sua sutileza e determinação, coragem e amadurecência. Sair da zona de conforto, parar num lugar completamente desconhecido e mesmo assim, tirar de letra, não é para qualquer um. São guerreiros os que conseguem com êxito e maestria. 

Neles, enxergo-nos 2014, quando entramos. Tão diferentes e únicos. Classificáveis num simples olhar. O aloprado, o nerd, o centrado, o revolucionário, a guriazinha, a brava, a mãe, o forçado, o festeiro. Mas num todo, sonhadores assim como nós fomos. Somos. Conviver com eles tem sido-me uma benção diária. Sempre uma nova piada, um novo riso, um outro cigarro, uma outra conversa. São também parte de mim.
Se pudesse classificá-los como partes do meu corpo, diria-os meu cabelo. Uma comparação um tanto infame, se não disse que vocês 2014, são meus órgãos vitais. Posso passar os próximos quatro anos em companhia desses outros que (sobre)vivo bem, mas só sabendo vocês na sala ao lado. Porque sem vocês não dá. Utilidade maximizada é na Vênus com vocês. Bem-estar é Fofão debatendo História da Economia. A nossa história que bem ou mal, incorpora um erre puxado de vez em quando. Porque eu falo. Porque faz bem variar. Mas no fim, lá no finalzinho mesmo, a essência de toda a felicidade é a cerveja no posto rindo da Contabilidade Social.

09/05/2012

A Menina Que Roubava Livros. (I)

Você já a viu antes, tenho certeza. Em suas histórias, seus poemas, nos filmes a que gosta de assistir. Elas estão em toda a parte, então, por que não aqui? Por que não numa bela colina de uma cidadezinha alemã? É um lugar tão bom quanto qualquer outra para sofrer.
 A questão é que Ilsa Hermann tinha resolvido fazer do sofrimento sua vitória. Quando a dor se recusou a largá-la, a mulher sucumbiu a ela. Abraçou-a.
Podia ter-se matado com um tiro, ter-se arranhado ou se entregado a outras formas de automutilação, mas escolheu a que provavelmente achava ser a opção mais fraca. [...]

01/05/2012

Sob as Lentes do Meu Óculos Embaçado

Duas da manhã. Uma garrafa térmica, um livro, olhos borrados, adornados por um óculos de grossas lentes. Embaçadas. Tudo muito óbvio, sutil. Uma louca. Uma quase estranha perdida no meio de uma guerra mental pessoal com medo de tudo se dissipar depois de um banho quente.
Sou o que ninguém vê misturado com o que personifico de mim. Sou uma criação alusiva de um quase ninguém perdido entre brincadeiras com palavras soltas e números fantasiados de vida eterna. Não sou numérica, não sou número, equação, meio, inteiro. Sou derivada de uma integral mal feita de uma vida largada a mercê de uma sorte inexistente. Com sonhos coloridos guardados na alma. Sonhos que não pude comer. Não pude viver. Não pude deixar fluir adiante. Sonhos aprisionados em olhos verdes constantemente rabiscados de preto. Uma máscara, uma vida. Ilusão. E as pessoas me olham com indiferença. Com olhos de julgamento por não ser padrão, por não exata. Ser perdida.
Tenho medo de me perder e nessa perdição, acabar me encontrando e perdendo a graça. Sou graciosa, meiga. Sou macho. Sou tantas coisas aprisionadas dentro de um coração apertadinho que quando te abraça menino, tem como única oração que não me deixe, não me largue, não me abandone. Que seja sempre meu. Meu irmão. Irmão. Mesmo tendo 21 anos, acho que nunca soube ser irmã direito. Sempre estive junto, sempre passei barras e dificuldades sem esmorecer e rindo, só pra não deixar a minha sanguínea triste. Mas eu nunca soube dividir. O que é seu, é meu. O que é meu vai ser sempre só meu. Não sei ser generosa. Não sei comparar e repartir. Defeito. Minha qualidade.
Minha. Sei ser. Todos. Sei ser. Ninguém. Sei mais. Ser da minha solidão, da minha angústia, da minha dor forçada. Não sei viver alegrias. Não sei ser feliz. Sorriso falso e envergonhado. Todas as outras meninas tão sortudas e tão bonitas e tão desejadas e eu com meus livros e óculos de grau e minha cara de nerd. Sozinha. E eu só queria um abraço. Desses que sufoca e faz sofrer quando afasta. Um urso. E me dou quando quero receber. E não recebo nunca. Sou carente, careta, cabeça, coração. Sei guardar uma vida inteira dentro de mim. Não ser discreta. Ser publicação que ninguém mais quer ler, porque é complicada, é extensa. É. E sou avesso, inverso, verso. Buscando prosa, poema, texto, crônica, composição, canção e melodia. Ser além, aquém, de quem. Ser tua, só tua. Ser homem. Sou mulher.

28/04/2012

Ausências




Ligar e seu numero acusar ocupado. Todas as vezes. Não sei se você foi assaltado, se desligou o telefone ou se fugiu para a Malásia. Você sempre tão excêntrico e maluco, que qualquer uma dessas opções caberia exatamente em suas escolhas de futuro incerto e impreciso. Lembro das vezes que me pegava no colo de surpresa e me carregava de ponta-cabeça, enquanto eu mordia seu joelho, feito um cão raivoso e você nem se importava. Éramos lindos e loucos juntos.

Inseparavelmente grudados. Feitos em velcro e super bonder para nunca mais separar. Mais que amigos, irmãos. Mais que irmãos, cúmplices. Uma lealdade e fidelidade um para com o outro, que causaria inveja a qualquer outro casal de namorados. Mas nós nunca fomos namorados, nunca seriamos. Você não dava brechas e eu me tornei especialista em esconder meus sentimentos. Acho que você nunca se deu conta que sempre fui apaixonada, entretanto, te queria da mesma maneira para sempre.

Meu bibelô de 2 metros de altura, uma criança de 20 e tantos anos. Que cresceu e esqueceu a parceira das brincadeiras de lutinha, do videogame, do futebol, das piadas sem graça, dos filmes de ação. Esqueceu quem nunca esqueceria de ti. Deixou para trás a vida. Trocou de estrada. Me deixou no meio do caminho, assoviando a nossa canção. Abertura do Dragonball.

25/04/2012

Bilhetinho

Menino bonito que mora na rua que eu cruzo todos os dias, traga seu sorriso e seu cabelo loiro escuro para fora quando eu passar em frente a sua casa. E cumprimente-me com um beijo no rosto e um abraço apertado, daqueles que sufoca e faz perder o ar. Conte-me uma piada sem graça e me faça ganhar a tarde.
E quando chegar a noite e nos encontrarmos naquele ambiente tão disperso e confuso, mantenha-me atenta a histórias incomuns que se misturam entre limites, números e gráficos. Mas nem se esforce muito, não preciso de coisas elaboradas para distanciar-me de todo esse mundo. Necessito apenas olhar seus olhos castanhos tão de perto e fim, fui para tão tão distante. Então, haja naturalmente, com seu falar carregado.
Ofereça-me um cigarro, uma bebida, um abraço e uma palavra amiga, que lhe retribuo tudo em dobro. E com um carinho incomum.

Letícia


Mais uma dose de tequila e mais uma crise interminável de choro. Eu sei, eu sei, homem não chora, mas o que eu vou fazer se é a única coisa que consigo fazer desde que deixei aquela menina? Sei também que é tarde demais para arrependimentos, mas não consigo me conformar. Como fui tão estúpido a ponto de deixar essa mulher maravilhosa escapar por entre meus dedos?

Faziam três meses que não a via e sentia uma saudade devastadora daqueles olhos castanhos tão marcantes e daquele riso frouxo que ela tinha. Uma face linda, adornada por longos cachos loiros. Ela era o sonho de qualquer homem. Parceira do futebol e videogame, não refugava uma brincadeira de lutinha, não dava chilique quando começava a chover e ela tinha feito chapinha, até dava risada. Companheira para todo e qualquer momento. Toda a noite, me dava aquele beijo de boa noite que me fazia esquecer do mundo e dava a maior segurança do mundo. Ela era uma mãe, uma mulher, minha menina. E isso começou a me incomodar. Não conseguia suportar a ideia de que, não conseguiria viver sendo dependente emocional de uma mulher, que precisaria da opinião dela para qualquer decisão que eu quisesse tomar. Pensava que por ser homem isso não poderia e nem deveria acontecer, o que meus amigos iriam pensar de mim? Que sou pau mandado. Mas eles são idiotas. E eu também fui, no momento em que a deixei partir. Sei lá onde eu estava com a cabeça, só sei que não era no lugar. Achei que pedindo um tempo isso ia mudar e eu ia ter o poder supremo sobre a relação. ESTÚPIDO.

Como eu a fiz sofrer com isso. Sei que ela entrou em depressão. Não comia, não estudava, nem trabalhar conseguia mais. Não colocava o rosto para fora de casa. Só conseguia chorar e se perguntar o que ela tinha feito de errado. Muitas vezes, em prantos, me ligava de madrugada perguntando o porquê de tê-la abandonado e eu lá, no auge da minha idiotice dizia que não dava mais, que precisava me sentir meu e ela estava me sufocando. Soube que depois disso, ela não falava mais. E como me doeu fazer minha garotinha sofrer.

Três meses. Acho que o tempo se arrastou mais lento para ela. Mas ela superou a minha burrada. Sei porque a vi hoje. Salto alto, vestido florido e o mesmo sorriso encantador. Seus longos cachos loiros se tornaram agora um chanel na altura dos ombros e castanho. Passos fortes, típicos dela. Maquiagem bem feita. Cheia de amigas, que talvez, a ajudaram a me esquecer. Ela vai passar por mim e eu não sei o que fazer. Ela me enxergou de longe e seus olhos marejaram. Por um segundo, senti que ela queria chorar. E eu, quase não consegui segurar minhas lágrimas. Ela se aproximava cada vez mais rápido com aqueles passos firmes. E passou reto. Como se eu fosse um desconhecido. Como se nunca tivéssemos nos visto. Passou por mim como se eu fosse um rosto qualquer. E doeu.

Minha menina, o que eu fiz com você?

22/04/2012

Amanhece outra vez teus olhos claros no espelho. Traz toda a força que o mundo inseriu em ti, revela a tua macheza. Faz do tombo um novo passo de dança e sai por ai, a rodopiar em canções inaudíveis aos ouvidos dos estúpidos. Sibila um novo conto cantado por artistas desconhecidos. Pinta tua cara, brinca de ser feliz. Transforma o pranto em tanto, um bom motivo para sorrir.

20/04/2012

Fragmentos Anexados.

Sentada no alto da pedra mais alta vendo o tempo passar se arrastando. O vento bate em meu cabelo de cachos mal feitos e desgrenhados, fazendo com que meus pensamentos incertos misturem-se, gerando uma confusão mental generalizada. Coisas passadas voltando a serem remoídas pelas lembranças roídas de uma época gostosa.
Lembranças que em todas tem um pedacinho de você. Do seu cheiro. Do seu jeito. Dos seus abraços e beijos que senti apenas uma vez. Se pudesse voltar, não precisaria nem ser no tempo, voltar apenas para sentir, voltaria aquela noite amena de quase outono onde seus braços tão presos a mim, pareciam pertencer mais ao meu corpo que ao seu e o mundo parecia inerte, apenas vendo a nossa entrega.

*****


*****

Da pedra mais alta é solitário e melancólico lembrar de você. Do seu sorriso de garoto  do seu cabelo loiro bagunçado. Pequenos detalhes e tantos significados. Por bastante tempo, essas foram as coisas que cercavam-me quando colocava a cabeça no travesseiro depois de um dia cansativo. Você me rondava mesmo ausente. E eu imaginava como seria acordar ao seu lado, ver a tua cara amassada e ter a legítima convicção de querer isso para todos os dias da minha vida.

15/04/2012

Escute Alice.

Sabe Alice, a vida é dura demais para deixar que o tempo nos endureça. Sorri, Alice! Faz de toda queda um novo passo e do tropeço, novo caminho.
Sei lá Alice, tem tanta coisa bonita por ai querendo ser conhecida. Sai do teu mundinho, conhece outras gentes, deixa o vento balançar tua franja loura. Corre campos abertos e cansa de euforia. Faz do teu jeitinho peculiar de ser Alice, mas faça. Só não estacione, não se permita.
Sê feliz Alice. Busca uma coisa que te complete e segue com ela, nela até o fim. Não desiste, porque uma hora a hora cai no teu colo e nessa hora,  hora certa é. 

06/04/2012

Ar, Ariane.


Não sei o que te fez mudar
Eu queria te fazer escutar
Todas as palavras que um dia 
Escrevi pra ti.
Sobre todos os sonhos que tive
E que com o tempo vi voar
Você, por entre os dedos escapar
Correr sem jamais poder alcançar.
Sem forças continuar
Resolvi por assim deixar
Um dia talvez poder voltar
Para então os realizar
Castelos recriar
E minha história então recontar
Fazer sonhar
Meu coração que outrora a chorar
Poder uma nova canção cantar
E de alegria gritar
Que a esperança enfim, aqui voltou a morar. 

30/03/2012

Despedidas Tardias

Essa então é a última coisa que eu escrevo te tendo como muso inspirador e alvo certeiro das palavras desconexas e perdidas no espaço que procuram dar algum norte para a minha existência e o que eu sinto e não consigo expressar verbalmente.
Foi o fim. Eu custei a acreditar nas breves doses homeopáticas de distância e solidão as quais você me submeteu nesse último mês. Já estava desenhada a nossa breve história que não era para ser e não foi. Um fim confuso para uma história de começo estranho, de desenrolar pífio e de descrição mediana. Lembra de como tudo começou naquela noite chuvosa de novembro? Sem passado, sem nada em comum, sem rastro de caminho cruzado que nos ligasse. Nada. Você de um lado. E eu do outro. Como se fosse nada além que um milagre, uma adição divina precisa na vida de cada um. Você já aspirante a gente grande e eu ainda ensaiava os meus primeiros passos na vida. Uma criança de 18 anos abandonada ao vento, sem nenhum tostão e pós-graduada na malandragem que só quem cresce descalço na rua pode ter. Você, um rapaz com a vida ganha, filho de tão nobre e conhecida advogada persuativa e argumentativa, de tão imponente falácia e orgulho materno. Nunca se soube da imagem de pais, tampouco falava, nem fazia questão de saber quem era. Bem assim.
Foram dias de tão pura alegria, amizade e um contentamento descomedido para ambas as partes que era impossível pensar em abandono qualquer que fosse a circunstância. Era visceral a amizade nutrida entre seres de dois mundos tão diferentes. Mesmo sem se ver, sem nunca ter tido o toque, era químico o que fluía ali. Bastante tempo até um encontro dar certo. Um anos e meio. Já era uma vida que tínhamos criado sem perceber..
Parte do que eu sou hoje, veio a partir de seu incentivo. Me mostrou que quem cresce na rua, também tem a chance de ir longe. Eu sempre acreditei em você. Suas palavras me motivavam a ir mais longe, mais fundo, mais a frente sempre. Tão jovem, tão sensato, tão dono de si. Invejável. Mas eu conheci sua casca. Essa era a sua mascara de blefe. Tão forte e imponente, com toda personalidade leonina a seu favor. Se vendia bem. Me apaixonei e acabei comprado gato por lebre. Me perdi, bati a cabeça, avariei.
Eu buscava tudo, você a parte boa apenas. Levei-nos nas costas, vivi como um cão ao léu em pleno inverno. Sofri dores indizíveis, intraduzíveis. Foram litros de lágrimas absorvidas por um pobre travesseiro velho e uma coberta suja de tinta guache vermelha. Seu sangue, seu time, minha angústia, minha dor. Vermelho. Apostas, certezas. Levei cada ironia com um sorriso de tolerância  no rosto, uma faca no peito e uma lembrança. Não foi fácil. Extremizei a ponto de me anular quando você pediu. Amigos, vontades, manias, tudo guardado numa gaveta por você.
Até sua arrogância vir a tona e junto sua futilidade começar a aflorar. O que antes era macula agora se transformou em tecido rubro. Não conseguia mais suportar. Mas mesmo assim, lutava. Lutei como se minha vida dependesse disso. Me impediu de viver, dizia que eu perdi o tempo para te ver e que só queria trabalhar. Eu sonhei o melhor e você colocou três pás de areia em cima.
Agora, vejo que meu erro não foi ter resistido a suas investidas e tentativas de me fazer dormir na sua cama, por sinal, meu maior acerto até hoje. Meu erro foi ter acreditado que, histórias irreais podem acontecer e a menina sujinha criada em vila pobre pudesse virar rainha de uma império judicial. Ela pode sim se tornar grande, mas por méritos próprios. Lutando pelos ideais e reais que ela considera justos e merecidos. E é por aí que vou seguir. Quando, há dois anos, você disse que eu podia ir mais além do que eu conseguia imaginar você estava certo. Posso e você não consegue assimilar isso. Por isso usa de suas armas pra tentar me boicotar. Um menino fraco e frágil que precisa sempre ser o centro do mundo para poder existir.
E hoje eu vejo que nenhum dia convivido contigo foi perdido. Todos serviram de aprendizado de como não ser e não tratar uma pessoa disposta a tudo pela nossa felicidade. E no final dessa última escrita sobre o nosso fim "oficial", te desejo o melhor que há. Não guardo rancor, magoa, ressentimento. Nada. Perdi tudo que se referia a você em alguma estrada longe. Guardo um afeto de simpatia, é verdade, mas nada além que apenas isso. Aproveite a juventude, realiza sonhos, busca objetivos. Pode mais que imagina, eu garanto.
Eu, que achei que te dizer adeus seria bem mais dolorido e enganei-me, vou seguir teus conselhos e resgatar meus velhos vícios, manis e virtudes que adormeci quando você pedira. Tenho fumado mais que antes e bebido menos, mas vou seguir vivendo bem. Tenho quem me faça rir dizendo boas bobagens todos os dias, amigos que não se importam em me atender as 3 da manhã, aos prantos. Meus garotos que jogam videogame comigo e minhas garotas com quem eu comento sobre os garotos que jogam videogame comigo. Te desejo uns bons amigos assim também e até mesmo um amor bacana que suporte o seu ego.
E quanto ao resto, eu me cuido das emboscadas que o cupido vai me tramar. Sei me proteger bem.  No mais, a vida segue, curte e imprevisível. Sorte para você, já que a minha foi ter renascido.

28/03/2012

E se eu pedisse, você apenas ficaria?
Sem precisar de nenhum outro gesto, apenas a presença em silêncio, você ficaria?
Apenas para que eu pudesse olhar-te sem nenhum pudor, sem culpas ou vergonhas, você ficaria?
Sem que eu esperasse ou criasse um futuro, nada além do aqui e agora, você ficaria?
Sem contratos, acordos, tratos ou promessas, apenas com pela vontade, você ficaria?
E mesmo com uma vida toda antes desse pedido, você ficaria?
Se houvesse concordância na ausência de sentido, você ficaria?
Me levaria?

10/03/2012



Quando o vento soprar forte menina
Quando se armar a chuva sobre você
Quando seus ouvidos ficarem sensíveis a tormenta
Nesse momento o que você precisa
É não se amedrontar diante disso
É contra tudo no peito
A ferro e fogo
Sem medo de acertar, com vontade mesmo de errar
Certa de que o que prover é lucro
Para quem tem a certeza do não
O talvez é prêmio
E o vale a pena tentar é supremo
Cuide de você menina!
Cuide de suas armas e armaduras
Lute com força, foco e fé.
Seu percurso depende só de você
Suas vitórias também.

06/03/2012

Palavras de Uma Bêbada Que Merecem Ser Ignoradas.

Que a gente nunca foi igual, todo mundo sabe. Ele do seu jeito tão certinho, sem vícios e avesso as farras e eu, tão aberta a aventuras, a novidades, a coisas interessantes. Ao movimento. Sempre fui mais dos outros do que de mim, no bom sentido, claro. Nunca escondi isso dele, muito menos de ninguém que quisesse me conhecer. É até meio óbvio me ver e não me conhecer meio que ao primeiro olhar. Sou intensa, entregue, viva.

Mas que sempre o quis, também não é segredo. O nome dele está escrito na minha testa como proprietário único e exclusivo. Eu o amo. Não é segredo, lenda, fábula, É realidade. E não tenho medo do que pode acontecer. São dois anos e meio, não duas semanas. Eu o conheço como a palma da minha mão. Sei o quanto minha expansão o incomoda. Quero mudar para fazê-lo feliz, mas é impossível. Sou expansiva, sou intensa. Sou do mundo. Mas quero ser dele. E só.

03/03/2012

Grávida, ela esperava ansiosa a chegada do seu tão sonhado rebento. Depois de tanto esforço, tanta luta, ela conseguira concebê-lo sem ajuda de médicos, da biologia, de laboratório. Sozinha, com seu empenho e dedicação por aquilo. Todos, loucos para ver a carinha do pequeno que estava para nascer. Os avós mais que ninguém, queriam logo segurar aquele fruto de esmero e cuidado que a filha tinha tido. Ela já sabia a roupinha que vestiria seu filho, quando juntos sairiam da maternidade.

 De cada detalhe ela havia cuidado, desde o conhecimento da gravidez. Fez o pré-natal, cuidou da alimentação, não teve um deslize sequer. Chorava toda vez que ouvia o coraçãozinho dele pelo ultrassom. E não aguentava mais apenas conhecê-lo assim. Queria tê-lo em suas mãos. Como sempre sonhou.

 As 20 horas de um sábado, o parto de anunciava eminente e incontrolável. Estava pronto pra vir ao mundo. Impaciente. Fez-se então o rebuliço. Todos corriam. cada um para um lado, todos com o mesmo destino. Correram. Apressados.

 Não foi suficiente a pressa. Nasceu morta a criança. Sequer um choro, sequer um fio de vida. Nada. Todo o esforço, tempo, dedicação e a maior vontade da vida dela, não pode viver. Porque não foi suficiente toda sua pressa. Não conseguiu dar vida. Fracassou e não soube onde.

 Sem chão, precisava voltar. Mas onde encontrar forças? Não conseguia encontrar.

 Onde encontrar?

01/03/2012

21:45


Ouve!
Existe uma dor que grita
Ela rejeita aquele corpo
Não quer aquela menina que tanto chora
Sabe que ela não aguentaria o seu peso

Vê!
Ela chora porque sofre
E é sofrimento de gente grande
Em alguém que não teve tempo de crescer
Que ninguém queria amparar

Sente!
A lâmina faz seus braços sangrarem tanto
Não se importa com o corte
Suas lágrimas são mais pesadas

Toca!
Não perdeu os sonhos
Somente deixou para mais tarde
Agora ela quer ficar assim
Apenas esperando por uma dor que grita...

25/02/2012

Carta Anônima

Tenho trabalhado tanto, mas penso sempre em você. Mais de tardezinha que de manhã, mais naqueles dias que parecem poeira assentada aos poucos, e com mais força enquanto a noite avança. Não são pensamentos escuros, embora noturnos. Tão transparentes que até parecem de vidro, vidro tão fino que, quando penso mais forte, parece que vai ficar assim clack! e quebrar em cacos, o pensamento que penso de você. Se não dormisse cedo nem estivesse quase sempre cansado, acho que esses pensamentos quase doeriam e fariam clack! de madrugada e eu me veria catando cacos de vidro entre os lençóis. Brilham, na palma da minha mão. Num deles, tem uma borboleta de asa rasgada. Noutro, um barco confundido com a linha do horizonte, onde também tem uma ilha. Não, não: acho que a ilha mora num caquinho só dela. Noutro, um punhal de jade. Coisas assim, algumas ferem, mesmo essas são sempre bonitas. Parecem filme, livro, quadro. Não doem porque não ameaçam. Nada que eu penso de você ameaça. Durmo cedo, nunca quebra.

 Daí penso coisas bobas quando, sentado na janela do ônibus, depois de trabalhar o dia inteiro, encosto a cabeça na vidraça, deixo a paisagem correr, e penso demais em você. Quando não encontro lugar para sentar, o que é mais freqüente, e me deixava irritado, agora não, descobri um jeito engraçado de, mesmo assim, continuar pensando em você. Me seguro naquela barra de ferro, olho através das janelas que, nessa posição, só deixam ver metade do corpo das pessoas pelas calçadas, e procuro nos pés delas aqueles que poderiam ser os seus. (A teus pés, lembro.) E fico tão embalado que chego a me curvar, certo que são mesmo os seus pés parados em alguma parada, alguma esquina. Nunca vejo você — seria, seriam?

 Boas e bobas, são as coisas todas que penso quando penso em você. Assim: de repente ao dobrar uma esquina dou de cara com você que me prega um susto de mentirinha como aqueles que as crianças pregam uma nas outras. Finjo que me assusto, você me abraça e vamos tomar um sorvete, suco de abacaxi com hortelã ou comer salada de frutas em qualquer lugar. Assim: estou pensando em você e o telefone toca e corta meu pensamento e do outro lado do fio você me diz: estou pensando tanto em você. Digo eu também, mas não sei o que falamos em seguida porque ficamos meio encabulados, a gente tem muito poder de parecer ridículos melosos piegas bregas românticos pueris banais. Mas no que eu penso, penso também que somos mesmo meio tudo isso, não tem jeito, e tudo que vamos dizendo, quando falamos no meu pensamento, é frágil como a voz de Olivia Byington cantando Villa-Lobos, mais perto de Mozart que de Wagner, mais Chagal que Van Gogh, mais Jarmush que Wim Wenders, mais Cecília Meireles que Nélson Rodrigues.

 Tenho trabalhado tanto, por isso mesmo talvez ando pensando assim em você. Brotam espaços azuis quando penso. No meu pensamento, você nunca me critica por eu ser um pouco tolo, meio melodramático, e penso então tule nuvem castelo seda perfume brisa turquesa vime. E deito a cabeça no seu colo ou você deita a cabeça no meu, tanto faz, e ficamos tanto tempo assim que a terra treme e vulcões explodem e pestes se alastram e nós nem percebemos, no umbigo do universo. Você toca na minha mão, eu toco na sua.

 Demora tanto que só depois de passarem três mil dias consigo olhar bem dentro dos seus olhos e é então feito mergulhar numas águas verdes tão Cristalinas que têm algas na superfície ressaltadas Contra a areia branca do fundo. Aqualouco, encontro pérolas. Sei que é meio idiota, mas gosto de pensar desse jeito, e se estou em pé no ônibus solto um pouco as mãos daquela barra de ferro para meu corpo balançar como se estivesse a bordo de um navio ou de você. Fecho os olhos, faz tanto bem, você não sabe. Suspiro tanto quando penso em você, chorar só choro às vezes, e é tão freqüente. Caminho mais devagar, certo que na próxima esquina, quem sabe. Não tenho tido muito tempo ultimamente mas penso tanto em você que na hora de dormirvezenquando até sorrio e fico passando a ponta do meu dedo no lóbulo da sua orelha e repito repito em voz baixa te amo tanto dorme com os anjos. Mas depois sou eu quem dorme e sonha, sonho com os anjos. Nuvens, espaços azuis, pérolas no fundo do mar. Clack! como se fosse verdade, um beijo.

 [Caio F. Abreu in Pequenas Epifanias]

Resquícios de Plantas Cegas



Não cabem mais meias palavras e você insiste no zero a zero. Quando o calor do verão se aproxima, você corre. Enquanto todas as folhas caem no outono, você me pede as flores. Te sonho inteira e me apareces inconstante. Busco "all you need is love" e você rebate"love is war".

Você criança quer andar de salto 15. Você adulta dá risada assistindo Tom e Jerry. Proponho a você um cinema e pipoca e você bate o pé em rave e energético. Quando me permito desistir, suas mensagens durante a madrugada me imploram para voltar. Te quero como um vício e você só me oferece doses homeopáticas.

Estranha.

Entretanto o que nos une é isso. Todas essas diferenças de um para o outro que a convivência evita melhor. Esse amor não nasceu; foi criado. Ele não crescerá, mas continuará vivo. Não tem raiz, só que nos prenderá mesmo assim. Impossível lidar. Impossível aceitar. Impossível esquecer.

22/02/2012

Convicções de Estrela Caída




É estranho voltar a algum lugar e perceber que todos ainda lembram o teu nome.
É estranho perceber que embora o tempo possa ter passado, certas coisas nunca mudam. Nunca mudaram. Não mudarão.
É estranho voltar pro teu ninho e sentir que ali não é mais o teu ninho.
E mesmo assim sentir coisas que há tempos não sentia.
Ver a alegria nos olhos de quem te viu crescer e que te vê hoje mudada.
Quem sabia de todas as tuas vontades, teus esforços e tua dedicação para que tudo fluísse bem.
Mas ao mesmo tempo em que a acolhida pode ser (re)feita, surge a certeza de tempo imperdoável que corre com impressionante rapidez.
O sonho não é mais o mesmo. Embora o antigo ainda esteja adormecido por não ter sido concluído com tamanho êxito.
Mas outras pessoas estão dispostas a concluí-lo.
Meu tempo passou e eu aprendi a ser livre a minha maneira.
Sem compromissos, sem amarras.
Não que eu não deseje voltar, não que eu não anseie voltar a passear canções lindas.
Mas agora eu perdi o ritmo. E não as danço.
Apenas escrevo lembranças de um tempo perdido e passado que era bom.
E que agora está mudado.

18/02/2012

Contrapondo Espelhos



Vamos colocar de uma vez por toda essa história que a gente tem ou finge que tem, em pratos limpos. Assim como eu, você sabe que é extremamente cômodo nos encontrarmos a cada trinta dias para poder desopilar. É bom, é divertido. Mas principalmente, é prazeroso. E eu não digo só em quesitos carnais, muito além disso. Me refiro ao fato de que a gente se renova, fica pronto e preparado para o que tiver que enfrentar nos próximos dias até o próximo encontro quando novamente risadas gostosas e escandalosas invadirão o recinto onde nós estaremos e arredores. É praticamente uma dádiva poder ter esses momentos de tranquilidade ao seu lado.

Mas só que essa comodidade pode alguma hora descambar pro sentimentalismo e alguma das partes, senão ambas, saírem machucadas. É complicado esse relacionamento PA exatamente por isso, uma hora alguém fica carente demais e pimba, erra a mão e acha que ama. Não, não ama. E nem sequer quer passar a vida inteira ao lado. Isso é carência, é a saudade do afago nos cabelos de madrugada. Lembra que no nosso contrato isso existe, mas sem nenhuma intenção de amanhecer com café na cama. Sem nenhuma segunda intenção. É isso e apenas isso. 

Existirão aquelas músicas tão românticas quanto pedidos de casamento enquanto a gente se olha de uma forma tão profunda que é capaz de despir a alma. Existirão aqueles momentos em que você vai precisar me abraçar e simular uma afeição apaixonada pra despistar qualquer mala inconveniente que insiste em dizer que me ama. E vamos rir disso porque realmente é engraçado. E vamos nos entregar a fundo porque é a ordem. Mas é só isso. Não há nenhuma hipótese remota de uma história de contos de fadas com final feliz pra gente. Porque não acreditamos. Porque não fazemos por merecer.

Agora, enquanto nossos corpos nus rolam nessa cama rindo porque alguma piada foi muito boa, eu entendo o porque nossa relação foi classificada como é. Somos amigos e estamos interessados na mesma coisa. Sem apegos, sem sentimentos. Sem dor. Mas é inevitável, sendo o que você é e eu sendo que eu sou, perceber o que nós somos quando estamos juntos. 

08/02/2012


Quando o inverno chegar
Quando o frio começar
Tudo ficará mais bonito
Cores até então escondidas
Trarão toda a sua sóbria energia.

Quando o inverno chegar
Trazendo todo aquele aconchego
Fazendo do sol ator principal
De dias intensos de alegria
Guiados pela vontade

Quando o inverno chegar
Virá o som melodioso da chuva
Fazendo de suas gotas um coral
Cantando músicas de esperança nascente
A cada vez que encontram uma janela

Só quando o inverno chegar...

04/02/2012

Estranhostória.

Ela não passava de uma garota vestindo unhas e batom vermelho. Com olhos de uma messalina encantadora e a cara lavada de santa criada em um ambiente nada familiar. Ele traduzia-se ao contrário dela. Olhos castanhos fixos num jornal de ontem, a expressão de quem não tem nada a perder. Sério, sisudo.  Lado a lado, desconhecidos e tão familiarizados um com o outro. Era difícil de explicar aquela química instantânea que ocorreu entre eles. Olhavam-se de maneira tão intensa que eram capazes de se despirem apenas com os olhares. E ninguém reparava, afinal, num ambiente como aquele, quem se importa em prestar atenção no alheio?

Uma aproximação nessa altura do jogo era quase contrariar as leis da física. Uma vodka para ela, um uísque 12 anos para ele. Histórias para contar. Ela sem reservas dizendo que não importava a opinião que ele teria depois que a noite acabasse. Ele dizendo que aquilo era um jogo e que estava ali para jogar. Combinados, subiram até um quarto simples. Ela com um frio na barriga que nunca havia sentido antes. Ele com uma sensação que o incomodava desde o momento que cruzara com aqueles olhos promíscuos.

Garrafa de tequila no criado-mudo, uma cama com um lençol vagabundo e cheiro de alfazema por todo o recinto. Receosos, queriam experimentar-se mas sentiam que se o fizesse, suas almas seriam uma da outra para sempre. Era aquele tipo de coisa que só acontece uma vez na vida. Cruzar com o verdadeiro amor e negar-se a acreditar nisso. Ele se recusava a acreditar que havia se apaixonado à primeira vista por uma mulher que usa o corpo como instrumento de trabalho. Ela queria tirar da cabeça o pensamento de largar tudo que sempre teve como vida e viver um conto regradamente certo que poucas pessoas tem a chance de experimentar.

Um pouco mais de esforço. Era seu trabalho, ela teria de conseguir afastar qualquer possibilidade ilusória de mudança de vida. Aquilo que ela pensava era impossível, em sua cabeça tão desorganizada e confusa.
- Desculpa, mas desce lá e escolhe outra menina, porque eu não vou conseguir fazer isso. Não hoje, não com você. É que, sei lá, eu não vou conseguir.

Um pouco mais de certeza. Era isso que ele precisava ouvir para cair numa armadilha com apenas duas opções: ou fugia daquela mulher ou fugia com aquela mulher. Decidiu não fazer escolhas.
- Não. Eu escolhi você. Se eu quisesse fazer isso com outra garota, teria a trazido até aqui e não a você. E se alguma coisa te impede, tudo bem. Eu espero você se acalmar. Pense melhor, estou ali na janela.

Respirou fundo. Uma , duas, três vezes. Ele havia decidido. Ela também.

I Believe in Life After Love. you Have Believe.

Ontem, enquanto ouvia um programa de músicas do anos 80/90, a frase de canção me chamou muito a atenção. Uma música que deveras sempre gostei bastante, mas nunca tinha me prendido a fazer filosofias quanto a ela. Mas dessa vez quando a Cher entoou "do you believe in life after love?", isso me veio como um soco na boca do estômago e junto com esse incômodo me surgiu o pensamento de que será mesmo que alguém tem dúvidas quanto a isso? Pessoas ainda acreditam que tudo acaba junto com um amor? Minha resposta mental foi imediata.

Foi uma resposta afirmativa, que insistia em me contrariar dizendo que tudo morre. Eu já sofri assim. Já achei que depois do amor, do afeto, do carinho gratuito e sem esperas, de todas essas coisas lindas que só o amor é capaz de trazer, o que vem é a dor. O que não deixa de ser verdade. Quando uma relação acaba de maneira abrupta e repentina, o que se manifesta é apenas a dor. É como se tudo isso que você compartilhou, não valesse de nada. Como se a pessoa que dividiu isso com você, tivesse morrido. Mas ela continua viva. E é esse o ponto. Ela continua viva. E porque, diabos, você teria de matar-se em vida por isso? É claro que vai doer, claro que você vai chorar, vai ficar meio fora de ar por algum tempo, mas você acima de tudo vai estar com sangue correndo nas veias.

Lembra que, mesmo durante a sua dor, o sol continuará nascendo, as árvores vão florescer, crianças vão sorrir por coisas banais e você vai expirar e inspirar muitas vezes. É bíblico. A dor pode durar uma noite, mas a alegria vem ao amanhecer. Quando você se der conta, estará nascendo com o sol outra vez, vai admirar o desabrochar das flores brancas do maracujá, vai sorrir ao ver as crianças sorrindo por futilidades. E vai perceber, assim meio que de súbito mesmo, que está feliz de novo.

E você precisa continuar acreditando. No amor, na vida, na vida depois do amor, na dor. Em tudo. Se você não tem algo em que acreditar, você não vive. Sobrevive apenas.

E se eu acredito na vida depois do amor? Sim, eu acredito.

01/02/2012

Just Smile.



E considerando todos os sonhos perdidos. Tendo em vista todas as vezes que tentou e não conseguiu. Levando em conta todas as rasteiras que levou da vida, se entende porque ela sorri tanto. Um sorriso sincero de quem ainda é inocente. Um sorrisinho de moça guerreira e que não desiste tão fácil das coisas da vida. Porque sua coragem lhe dá o dobro de todo o impulso necessário para não parar de correr. Porque sempre vai existir uma maneira para se curar quando se machucar.
Ela não quer pisar em ninguém, ela não quer ser dependente de ninguém. Apenas quer poder ser ela mesma independente do preço que isso custe. E se tiver que pisar em alguém para que isso aconteça, ela o fará. Tantos já a magoaram e pisaram nela pelo mesmo motivo, o que a faria imune disso?
Aprendeu que, independente de ser ou não feliz, precisa somente sorrir.
Além. Amém.


29/01/2012

Traumas, Camas e Travesseiros.


Nunca consegui dormir longe da minha cama. Bom, na verdade do meu travesseiro. De todas as vezes que eu tentei, ficava me revirando no colchão até amanhecer ou ser uma hora aceitável para levantar. É meio infantil, eu sei. Meio não, completamente infantil e imbecil, mas que posso fazer eu, se é a verdade?!
Entretanto dessa vez foi diferente. Não só consegui dormir como foi algo tão angelical e me trouxe tanta paz, que eu não queria levantar daquela cama.
Quem sabe o problema não fosse o travesseiro e sim a companhia que não deixava eu roçar meu pé gelado em sua panturrilha tão quentinha durante a madrugada. Talvez o grande problema não fosse a cama móvel e sim a cama-pessoa que me acolhia, de forma tão fria e superficial. Dessa vez não. Meu pé percorreu cada pedacinho daquela perna e a acolhida foi tão terna que, ai, se pudesse veria o mundo morrer ali.