Páginas

23/11/2014

Deixei as canecas sobre a pia e a cortina da janela continua fechada. É como se qualquer fresta que adentrasse esse cômodo fosse um convite a pensar em você. Uma oportunidade para pegar o telefone e discar seu número, rolar de rir dessa loucura e desligar quando você der o primeiro "alô?". Sou imatura a esse ponto sim, meu bem. Você sempre soube que meus parafusos nunca foram muito bem apertados, que sempre fui a ovelha negra de todo e qualquer ambiente onde adentrava. E você, todo recatado, resolveu se arriscar nesse misto de insanidade e rebeldia que sempre foi a minha vida. Não te adverti que seria um erro. Achei que seria seu. Mas como sempre o amor na minha vida é um jogo de azar, eu acabei fazendo 20 invés de 21. Perdi a aposta. Perdi você.
Agora, por favor, esqueça a cortina e o sol. Não me importo com a bagunça. Estranho foi me acostumar com a sua claridade e ter de voltar para as sombras.

10/11/2014

Talvez com o tempo eu aprenda a ficar um pouco menos descabelada ou um pouco menos maluca. Na verdade eu não me importo muito com o ser nesse sentido das coisas. Eu quero estar. Se eu estou bem com meu cabelo indomável e cheio de frizz, o que me importa se o salão está com desconto na escova pregressiva? Se eu não vejo problema em estar 10kg acima do peso e mesmo assim estar saudável, por que raios vou querer gastar mais de cem reais na mensalidade de uma boa academia só pra passar a imagem de fitness? Se eu estou avariada? Talvez, mas pelo menos estou e não sou.

03/11/2014

Runaway

Ela sumiu e não dá resposta. O telefone não chama, ao interfone não responde e quanto a chave que eu tinha, o cadeado foi trocado. Ela fugiu pra longe da alma que eu jurava que ela tinha. Eu não a vi. Eu não a toquei. Eu não sei de mais nada. 

Eu nunca soube.

(*) 

Entra feito um míssil. Bate as portas, com lágrimas nos olhos e fones nos ouvidos, não escuta ninguém. Quer a escuridão para combinar com a solidão da alma. Se já sorriu, não lembra. Hoje sua música é a canção fúnebre que os sinos da igreja tocam. Algo morreu dentro daquele peito. Só não se sabe o que é.

31/10/2014

No quarto andar as pessoas são plásticas tentando ensinar como se transformar em aço. Ironia que ninguém faz a mínima questão de corrigir. Todas estão muito ocupados em suas graficidades para preocuparem-se se o mundo lá fora está acabando em fogo ou gelo. Ou no final das contas o mundo deles não acabe, apenas recrie-se através de números que eu não almejo pra mim.
No quarto andar eles te roubam a vida e não se importam se a máquina um dia dominar o planeta. Ali não existe sentimento, apenas uma vontade de pisar sobre cada um e imperar sua vontade magna. Engana-se quem acha que o amor não existe é em SP, é ali, no corredor em silêncio que mora toda a indiferença. salvo alguns poucos que ainda sobressaem-se sobre toda essa reinação. Minha esperança está sobre esses, que não se dobram, não se moldam. E que ainda gritam que o amor é mais importante que os números, que ainda insistem nas lágrimas. Aqueles que ainda tem seus corações despedaçados pelas coisas bobas da vida. E que são feliz com essas mesmas bobagens.
No quarto andar as coisas estão longe de serem perfeitas. Mas se as máquinas souberem dialogar com os espantalhos que ainda pregam que todos precisam de um coração, talvez possa voltar a existir oxigênio.

04/09/2014

Rumo aos Ipês




Deixa que eu pego a sua mão.
Não, não precisa ter medo, eu te ensino como se anda aqui. Aqui não existem cacos de vidros, não precisa ter cuidado. você não irá se machucar. Se você deixar, eu te mostro como caminhar. Basta seguir os ipês amarelos, eles nos facilitarão a ida. Dorothy andava pelos tijolos dourados, buscando ir pra casa. Nós vamos em busca dos ipês, para encontrar um novo lar. Basta você entrelaçar seus dedos aos meus. Sem receio, sem preocupações com o que irá acontecer. O caminho é seguro, eu garanto, já vim por aqui antes. Por favor, confie e acredite em mim, eu não vou te levar para a boca de leão. Vai ser bonito, terá um jardim e borboletas. Será tranquilo, eu prometo.
Só me dê a sua mão, que eu te mostro o caminho. E se você quiser, podemos dançar no meio do caminho e até rolar de rir porque choveu e nos embarramos todos enquanto corríamos até o pote de ouro no final de arco-íris.

16/08/2014

78 Dias



Pai,


Essa tarde eu assisti um filme. Ele contava a história de uma menina que tinha nos livros um escape, uma fuga pra essa loucura que é a vida. A vida dela se passava na guerra e narra como o Führer estava presente em cada momento daquela pequena. Durante uma cena, ela recebeu de presente um livro, para que escrevesse tudo que sentisse ou quisesse. Essa pessoa que lhe deu o livro era um judeu e entoou uma frase que me marcou como ferro em brasa: "Eu sempre estarei vivo em suas palavras", ou algo do gênero. E de fato, ele seguiu vivo nela. Ele e todos os outros que conquistaram o coração daquela menina de cabelos claros e magricela. Saumensch. Porquinha. Eu já conhecia esse filme, já o tinha assistido. O livro no qual ele foi baseado também. É um dos meus preferidos. 

Foi isso que de uma vez por todas me fez vir até aqui, sentar em frente a esse teclado e finalmente te escrever. Sempre procrastinando, deixava para depois. Te deixava pra depois, assim como fiz durante todo o tempo que pude te ter ao meu lado. Todas as brigas e todos os choros e todos os gritos. Nunca pensei que o silêncio doesse. Tinha nele um refúgio, agora ele é o meu tormento. Por Deus, como pode uma coisa se transformar assim!? 

Como disse antes, foi o filme que me fez vir até aqui e fazer o que já planejava a um mês ou dois. Te escrever, te colocar a par de tudo que acontece por aqui. Eu sei que tu olha por nós e espero que não se preocupe se as coisas estiverem mais confusas do que nunca. Não sabíamos como reagir diante do que aconteceu. Ninguém tem culpa, embora eu ainda carregue um ressentimento pela distância. Não me perdoarei. Mas, por favor, não seja como eu e me perdoe, me conceda isso. Se eu pudesse, estaria ali, junto de todo escarcéu. Deve ter sido difícil ter ido embora com tantos gritos em seus ouvidos e ninguém de fato para ajudar. Não tinha muito o que ser feito, acho. Mas espero, do fundo do coração, que não tenha sido ruim. Espero que o plano espiritual esteja te fazendo bem, espero que esteja feliz.

Aqui a gente segue, aos trancos, um pouco mais do que sempre foi. As duas ainda não se bicam e por pouco não saem no tapa. Seria imensamente engraçado se não fosse extremamente triste. Pequena tem trilhado o caminho dela. Trabalha e vive pra ela, como nunca deixou de fazer. Tem as ideias dela e precisa ir adiante com todas as coisas que ele deseja. Eu tenho orgulho dela ter o mesmo sangue que eu: o seu. Não sei se você sabe, mas foi ela que organizou todo o último carinho à sua morada terrena temporária. Ela forte, mais forte que qualquer outra pessoa, mas disso você sempre soube. 

Não sei se já chegou até aí, mas a Copa já acabou e o Brasil, como esperavas, fez um fiasco enorme. O vencedor não foi a seu agrado, como eu posso ter certeza, mas eles merecem, foram os melhores e ganharam com mérito. Outra coisa, não faço ideia se existe apenas um lugar para humanos e animais, mas se for assim, espero que a cadelinha pretinha e miúda que morava aqui ao lado deve estar aí com você. Não a chute, por favor. Brinque com ela! falando nisso, espero que a tia esteja bem. Ela, assim como você,não merecia ter ido tão cedo. E o vó também. Ele faz os versos dele aí? Ele tem tocado gaita? E quantos baixos ela tem? espero que ele também esteja bem. Nunca tive nada contra ele, mas a vida forçou uma distância. Entretanto, o gosto dele por escrever e contar histórias permaneceu em mim. 

Quanto a mim... Eu ainda continuo aqui sentada, esperando uma solução cair do céu. Pode ser que eu tenha medo de viver, mas não. Eu ainda não encontrei a hora certa ou o jeito certo de viver. E isso me assombra porque talvez eu nunca saiba. Segunda-feira eu volto pro lugar gelado e eu não sei o que esperar de lá. Não sei se as pessoas ainda me reconhecem e se elas ainda tem lembranças de como eu sorria. Você ainda se lembra? Eu lembro do seu sorriso meio banguela quando me via cantando a plenos pulmões no quarto. Eu sempre amei você tanto! Falando nisso, você já deve saber quem é o gafanhoto, com todo aquele cabelo bagunçado e aqueles olhos tristes. Foi ele quem me ajudou. E continua ajudando todos os dias. Ele tem um coração tão grande! Se você puder vê-lo, goste dele, ele merece! 

De resto, eu sinto muita, muita saudade. Você era meu bonequinho, eu gostava de te apertar e depois de tudo, eu tenho me reservado a fazer isso. Acho que assim como eu, você sabe que todas aquelas brigas e discussões nunca foram sérias. Mesmo com tanta desavença, a gente ainda sabia como se fazer rir. Hoje é difícil rir de verdade, com vontade sem que pareça uma afronta. Acho que não tem muito como fugir de toda essa coisa estranha que é viver e conviver com o pedaço que falta, o espaço vazio na cama, a poltrona vazia na sala. Vai demorar. As coisas tem corrido bem, do jeito que é possível. Aos pouco eles irão melhorar. Mas o buraco que você causa, nada, nada é capaz de fechar.

Esteja bem. Fique bem. 
E olhe por nós e sinta-se feliz.
Nós três nos sentimos por ter estado contigo.
E por elas também falo que te amamos muitos.

De todo o coração, que o 
eu mais possuo,

Janice.

01/08/2014

Sobresemanas.

Olha, eu sei que pode não ser nada disso. Sei que pode ser tudo isso. E também sei que isso pode não ser nada. Mas antes de qualquer coisa, me faz um café que eu explico cada coisa no seu tempo. Sem açucar, por favor.

Fato é que eu me perdi enquanto você acarinhava o meu cabelo numa daquelas vezes que a gente saiu pra se conhecer. Ou talvez foi o abraço mais forte na primeira vez que eu fui embora. Talvez você quisesse que eu ficasse, eu não sei. Eu queria ficar. Até hoje eu quero ficar. Não, não coloca muita água, não gosto de café que não seja bem encorpado.

Eu não sei se você também notou, mas começou a existir um brilho nos seus olhos enquanto você me olhava. Isso me assustou. Você não me conhecia, era a segunda vez que me via. Nesse dia também, eu descobri de toda a história da sua família e que você passou uma vida inteira sem saber pronunciar seu sobrenome direito. Acontece, eu também não saberia se o tivesse. Soube da poodle que você chama de tapete. E principalmente do orgulho de ser quem é. Senti vontade, entre um café e outro, de segurar a sua mão e pedir da maneira mais desesperada possível que você nunca me deixasse. Não faz café instantâneo, eu não gosto. Faz ele passado mesmo. E forte.

Confesso. Eu não dava nada por você. Nadinha. Mas eu não sei o porquê. Precisou uma outra noite pra saber que eu estava completamente enganada. Você não avançou. Você entendeu. Eu vi a oportunidade que eu perderia se fosse estúpida o suficiente pra te deixar partir naquela hora. Não partiu. E segurou minha mão. Eu esperei menos. Então veio o abraço mais acolhedor que eu experimentei. Eram dois metros de braços me envolvendo, como querer ir embora? Foi ai que eu vi que não tinha mais saída. Já ferveu a água?

Em duas semanas, minha vida tinha virado de ponta cabeça e eu não podia mais controlar isso. Deixar rolar seria a solução mais exata. Mas eu sou medrosa. Queria que você gostasse de mim, queria que fosse bonito-e-pra-sempre-amém. "Não espera nada. Só vem. Vem e deixa as coisas acontecerem como tiver que ser". Eu, medo. Você, paciência. Qualquer pessoa desistiria. Você continuou ali porque investir mesmo com uma cotação baixa da bolsa, ainda é negócio. Bolsa é jogo de azar. Assim como relacionamentos. Eu nunca fui boa em jogos de azar. Mas não custava tentar uma outra vez. O filtro já tá certinho dentro da cafeteira? Você não sabe como colocar o filtro direito e sempre acaba indo pó pro café pronto.

Eu não sei se isso vai durar. Eu não queria que fosse tão pouco que eu ficasse a mercê de tão pouca coisa que aconteceu. Foi intenso, foi gostoso. Essas tem sido as melhores semanas que eu tenho passado. Eu nunca soube ser tão feliz abrindo mão de todos os meus pré-conceitos antes. Eu nunca não pensei tanto quanto agora. Você tem me feito bem. Isso tem se apresentado tão bonito aos meus olhos que, o brilho que antes existia só nos seus, hoje por osmose estão em mim. Sim, por osmose. Seus olhos em cima dos meus tem sido uma dádiva, um aprendizado.

Droga. Me apressei de novo. Não esperei o café ficar pronto e rasguei o verbo. Desculpa, eu não sei esperar. Imperfeições. Mesmo assim eu continuo bonitinha. Vou ser bonitinha com a maquiagem borrada e cara de sono. Se você diz, eu acredito de olhos fechados. Depois do convite do não existe futuro, existe o hoje, eu me recuso a recusar qualquer convite que venha da sua parte. Na caneca grande, por favor.

Então, é isso. E se eu pudesse te fazer um pedido, seria: Vem. Sem espera, sem amanhã. E fica. Eu gostaria que você ficasse. De verdade. Não recusa um pedido sincero de um quase ruiva cheia de sardas. E fica.

Fica?

24/07/2014

Sem Título Que Rotule o Tamanho da Vida

Tem horas que a gente se desprende. Das ambições, das pessoas, das coisas. Não necessariamente nessa ordem. Percebe que o insubstituível, pode ser trocado por um artigo de baixo custo e o inseparável se solta com água quente. Aprende que os "ins" desaparecem com o tempo. Vê que o real significado do espectro das cores é cinza e não branco. Que a tristeza não é (e nem pode ser) banal. Esse é um manifesto para que todas as dores e amores sejam sentidos na sua raiz.

Por favor, sintam! Desesperem, chorem, gritem, mas por gentileza, façam alguma coisa significante com suas vidas. Aproveitem cada instante como se tudo que conhecemos, como mundo acabasse amanhã. E acima de tudo, amem incondicionalmente. Não acentuem o amor, o amar. Não freiem as emoções. O tempo é muito pouco pra selecionar os sentimentos.



J.

29/06/2014

Espaço





Quando ouvi aquelas três palavras, foi como se o mundo inteiro desabasse sua fúria sobre mim. E distante, me senti a criatura mais inútil do mundo. Era muito cedo para ouvi-las, era a piada mais estúpida que a vida me obrigou a conhecer. E como se não bastasse, a sensação de labirinto se apoderou de mim. Não ter para onde correr, a não ser para o olho do furacão. Não me deram escolhas, tive que agarrar as fagulhas de força que surgiam esporádicas. Quando o fim acontece, precisa-se ser concreto, feito de pedra inabalável. Mármore.

Uma cena e a vida foi embora. Uma cena e minha vida, antes tão plana, tornou-se um caminho a ser percorrido com precaução. Ninguém merece passar pela última certeza universal da vida. Admito a precisão de uma mudança, mas não o tapa. E doeu. E dói. E doerá sempre que lembrar. Causa e circunstância, a fuga não aceitou minhas desculpas. Quando a gente encara o que não quer, aprende o triplo.

Hoje acordar virou obrigação e cozinhar tornou-se tortura. Sentar-me sozinha a mesa, ver a poltrona vazia e não ter mais a certeza da pipoca estourando nos domingos de futebol. O vazio é pior que a dor. O silêncio condena mais que o martelo.

28/06/2014


Um mês e eu ainda escuto o ressoar de seus gritos pelas paredes da casa.
Um mês e eu ainda uso as mesmas meias velhas que roubei da sua gaveta.
Um mês e tenho sofrido por fazer todos os dias almoço apenas pra mim.
Um mês e todas aquelas coisas que antes pareciam ser insignificantes, se tornaram o motivo da minha angústia diária.
Um mês e a única coisa que sinto é a chuva dentro de mim.
Nunca esperei que ter saído naquela madrugada ia doer tanto. Eu queria ter mais tempo. Queria ter entendido mais, compreendido mais. Amado mais.
Desculpa.

15/05/2014

Os Três Mal-Amados, José Cabral de Melo Neto


O amor comeu meu nome, minha identidade, meu retrato. O amor comeu minha certidão de idade, minha genealogia, meu endereço. O amor comeu meus cartões de visita. O amor veio e comeu todos os papéis onde eu escrevera meu nome.

O amor comeu minhas roupas, meus lenços, minhas camisas. O amor comeu metros e metros de gravatas. O amor comeu a medida de meus ternos, o número de meus sapatos, o tamanho de meus chapéus. O amor comeu minha altura, meu peso, a cor de meus olhos e de meus cabelos.

O amor comeu meus remédios, minhas receitas médicas, minhas dietas. Comeu minhas aspirinas, minhas ondas-curtas, meus raios-X. Comeu meus testes mentais, meus exames de urina.

O amor comeu na estante todos os meus livros de poesia. Comeu em meus livros de prosa as citações em verso. Comeu no dicionário as palavras que poderiam se juntar em versos.

Faminto, o amor devorou os utensílios de meu uso: pente, navalha, escovas, tesouras de unhas, canivete. Faminto ainda, o amor devorou o uso de meus utensílios: meus banhos frios, a ópera cantada no banheiro, o aquecedor de água de fogo morto mas que parecia uma usina.

O amor comeu as frutas postas sobre a mesa. Bebeu a água dos copos e das quartinhas. Comeu o pão de propósito escondido. Bebeu as lágrimas dos olhos que, ninguém o sabia, estavam cheios de água.

O amor voltou para comer os papéis onde irrefletidamente eu tornara a escrever meu nome.

O amor roeu minha infância, de dedos sujos de tinta, cabelo caindo nos olhos, botinas nunca engraxadas. O amor roeu o menino esquivo, sempre nos cantos, e que riscava os livros, mordia o lápis, andava na rua chutando pedras. Roeu as conversas, junto à bomba de gasolina do largo, com os primos que tudo sabiam sobre passarinhos, sobre uma mulher, sobre marcas de automóvel.

O amor comeu meu Estado e minha cidade. Drenou a água morta dos mangues, aboliu a maré. Comeu os mangues crespos e de folhas duras, comeu o verde ácido das plantas de cana cobrindo os morros regulares, cortados pelas barreiras vermelhas, pelo trenzinho preto, pelas chaminés. Comeu o cheiro de cana cortada e o cheiro de maresia. Comeu até essas coisas de que eu desesperava por não saber falar delas em verso.

O amor comeu até os dias ainda não anunciados nas folhinhas. Comeu os minutos de adiantamento de meu relógio, os anos que as linhas de minha mão asseguravam. Comeu o futuro grande atleta, o futuro grande poeta. Comeu as futuras viagens em volta da terra, as futuras estantes em volta da sala.

O amor comeu minha paz e minha guerra. Meu dia e minha noite. Meu inverno e meu verão. Comeu meu silêncio, minha dor de cabeça, meu medo da morte.

03/05/2014

Pista de pouso, amém.





Nesses dias, apesar de toda turbulência pela qual nossa aeronave atravessou, acho que a pressão diminuiu e podemos, enfim seguir adiante.

E nesses dias também, andava perdendo palavras a esmo no limbo da existência enquanto as mesmas precisavam estar em uma folha, num papel, numa tela. Mas não eram as dificuldades que me impediam de expelir manualmente todo sentimento que costuma existir nesse pequeno pedaço de ser que sou. Eram as alegrias, a falta de oxigênio motivada por um milhão de risos novos e diferentes a cada dia que me amarravam a não querer espalhar todo coração. Dizem que quando a felicidade é muita, ela é boa quietinha, calminha e que gritá-la aos quatros traz mal agouro. Por isso de tanto receio. Insegura que sou, quis manter toda a proteção perto de mim, de ti, de nós.

Acho que depois de todo esse tempo, não é mais pecado querer dizer todo o bem que me faz a tua presença, a tua existência, as tuas charadas com pontinhos que não tem sentido e nem graça, mas mesmo assim são as coisas mais bem elaboradas das quais eu já ri. Não, acho que as tuas caretas vencem. Ou o pombo que tira da cartola quando, em ataque, eu recuo. Tu tem magias que a própria magia desconhece. E mesmo em silêncio, dizes tudo e nada. 

Sinto por não conseguir ser mais que sou e por querer sempre te preservar intacto, indolor. Sabe, pequeno,  todos os meus erros sempre foram tentando acertar, mas meu comportamento desastradamente destrambelhado leva tudo pro final mais engraçado e diferente do planejado. E tu compreende que válida é a tentativa, então não e repreende, não me julga. E isso, acho, que meu nível espiritual nunca vai conseguir alcançar. Essa paz de que existe o amanhã pra tentar de novo, existe um outro amanhecer pra acreditar. Por vezes, tenho a impressão que me agarro tanto em ti que machuca. É que esse pra mim é um mundo tão novo, tão limpinho, que eu preciso conhecer como é que se vive aqui. E é um lugar quentinho... talvez o inverno não nos encontre aqui. Certeza que não.

09/02/2014

A Novidade das Palavras Repetidas



É estranho como as coisas acontecem quando a gente não espera. Acho que essa é a maior lei, não (des)esperar. Ficar mansinho, deixar o vento levar o barco e saber que o que acontece, acontece por alguma razão. Seja hoje ou no mês que vez. Quando é pra ser, as coisas esperam em seu devido lugar. Adormecidas.

Nada é pra já. E se irritar com a lentidão das horas só traz rugas. Melhor é ir andando calmo pelas ruas que brilham em neon. Aprendi que não se deve subestimar a vida e nem superestimar o destino. Esses dois são as crianças mais travessas do conto de fadas de todo bom ser humano. Conto de fadas sim! Cada um tem o seu, seja emprego, amor ou moradia. Conto de fadas é aquilo em que acreditamos, naquela louca verdade só nossa.

O que pintar, eu assino. Não sei onde li, mas concordo. Parei de tentar correr contra a marcha e tô querendo encontrar meu recanto de paz. Verdade seja dita, minha paz e acalento existem desde sempre. Dentro de mim. Mas a cada novo dia, a cada amanhecer calorento de fevereiro, tenho sorrido mais bonito por saber que esse meu recanto também é recanto de outrem.

A pressa não é amiga e andar aos tropicões te leva ao chão. Nenhuma novidade, mas sempre existe alguém que precisa ouvir isso. Não é feio cair. Feio é não aceitar levar a vida com a alma tranquila. Com o coração em paz com a razão.

Quando se descobre isso, você muda. E ao redor de você, o mundo muda também.