Olha, eu sei que pode não ser nada disso. Sei que pode ser tudo isso. E também sei que isso pode não ser nada. Mas antes de qualquer coisa, me faz um café que eu explico cada coisa no seu tempo. Sem açucar, por favor.
Fato é que eu me perdi enquanto você acarinhava o meu cabelo numa daquelas vezes que a gente saiu pra se conhecer. Ou talvez foi o abraço mais forte na primeira vez que eu fui embora. Talvez você quisesse que eu ficasse, eu não sei. Eu queria ficar. Até hoje eu quero ficar. Não, não coloca muita água, não gosto de café que não seja bem encorpado.
Eu não sei se você também notou, mas começou a existir um brilho nos seus olhos enquanto você me olhava. Isso me assustou. Você não me conhecia, era a segunda vez que me via. Nesse dia também, eu descobri de toda a história da sua família e que você passou uma vida inteira sem saber pronunciar seu sobrenome direito. Acontece, eu também não saberia se o tivesse. Soube da poodle que você chama de tapete. E principalmente do orgulho de ser quem é. Senti vontade, entre um café e outro, de segurar a sua mão e pedir da maneira mais desesperada possível que você nunca me deixasse. Não faz café instantâneo, eu não gosto. Faz ele passado mesmo. E forte.
Confesso. Eu não dava nada por você. Nadinha. Mas eu não sei o porquê. Precisou uma outra noite pra saber que eu estava completamente enganada. Você não avançou. Você entendeu. Eu vi a oportunidade que eu perderia se fosse estúpida o suficiente pra te deixar partir naquela hora. Não partiu. E segurou minha mão. Eu esperei menos. Então veio o abraço mais acolhedor que eu experimentei. Eram dois metros de braços me envolvendo, como querer ir embora? Foi ai que eu vi que não tinha mais saída. Já ferveu a água?
Em duas semanas, minha vida tinha virado de ponta cabeça e eu não podia mais controlar isso. Deixar rolar seria a solução mais exata. Mas eu sou medrosa. Queria que você gostasse de mim, queria que fosse bonito-e-pra-sempre-amém. "Não espera nada. Só vem. Vem e deixa as coisas acontecerem como tiver que ser". Eu, medo. Você, paciência. Qualquer pessoa desistiria. Você continuou ali porque investir mesmo com uma cotação baixa da bolsa, ainda é negócio. Bolsa é jogo de azar. Assim como relacionamentos. Eu nunca fui boa em jogos de azar. Mas não custava tentar uma outra vez. O filtro já tá certinho dentro da cafeteira? Você não sabe como colocar o filtro direito e sempre acaba indo pó pro café pronto.
Eu não sei se isso vai durar. Eu não queria que fosse tão pouco que eu ficasse a mercê de tão pouca coisa que aconteceu. Foi intenso, foi gostoso. Essas tem sido as melhores semanas que eu tenho passado. Eu nunca soube ser tão feliz abrindo mão de todos os meus pré-conceitos antes. Eu nunca não pensei tanto quanto agora. Você tem me feito bem. Isso tem se apresentado tão bonito aos meus olhos que, o brilho que antes existia só nos seus, hoje por osmose estão em mim. Sim, por osmose. Seus olhos em cima dos meus tem sido uma dádiva, um aprendizado.
Droga. Me apressei de novo. Não esperei o café ficar pronto e rasguei o verbo. Desculpa, eu não sei esperar. Imperfeições. Mesmo assim eu continuo bonitinha. Vou ser bonitinha com a maquiagem borrada e cara de sono. Se você diz, eu acredito de olhos fechados. Depois do convite do não existe futuro, existe o hoje, eu me recuso a recusar qualquer convite que venha da sua parte. Na caneca grande, por favor.
Então, é isso. E se eu pudesse te fazer um pedido, seria: Vem. Sem espera, sem amanhã. E fica. Eu gostaria que você ficasse. De verdade. Não recusa um pedido sincero de um quase ruiva cheia de sardas. E fica.
Fica?
01/08/2014
24/07/2014
Sem Título Que Rotule o Tamanho da Vida
Tem horas que a gente se desprende. Das ambições, das pessoas, das coisas. Não necessariamente nessa ordem. Percebe que o insubstituível, pode ser trocado por um artigo de baixo custo e o inseparável se solta com água quente. Aprende que os "ins" desaparecem com o tempo. Vê que o real significado do espectro das cores é cinza e não branco. Que a tristeza não é (e nem pode ser) banal. Esse é um manifesto para que todas as dores e amores sejam sentidos na sua raiz.
Por favor, sintam! Desesperem, chorem, gritem, mas por gentileza, façam alguma coisa significante com suas vidas. Aproveitem cada instante como se tudo que conhecemos, como mundo acabasse amanhã. E acima de tudo, amem incondicionalmente. Não acentuem o amor, o amar. Não freiem as emoções. O tempo é muito pouco pra selecionar os sentimentos.
Por favor, sintam! Desesperem, chorem, gritem, mas por gentileza, façam alguma coisa significante com suas vidas. Aproveitem cada instante como se tudo que conhecemos, como mundo acabasse amanhã. E acima de tudo, amem incondicionalmente. Não acentuem o amor, o amar. Não freiem as emoções. O tempo é muito pouco pra selecionar os sentimentos.
J.
29/06/2014
Espaço
Uma cena e a vida foi embora. Uma cena e minha vida, antes tão plana, tornou-se um caminho a ser percorrido com precaução. Ninguém merece passar pela última certeza universal da vida. Admito a precisão de uma mudança, mas não o tapa. E doeu. E dói. E doerá sempre que lembrar. Causa e circunstância, a fuga não aceitou minhas desculpas. Quando a gente encara o que não quer, aprende o triplo.
Hoje acordar virou obrigação e cozinhar tornou-se tortura. Sentar-me sozinha a mesa, ver a poltrona vazia e não ter mais a certeza da pipoca estourando nos domingos de futebol. O vazio é pior que a dor. O silêncio condena mais que o martelo.
28/06/2014
Um mês e eu ainda escuto o ressoar de seus gritos pelas paredes da casa.
Um mês e eu ainda uso as mesmas meias velhas que roubei da sua gaveta.
Um mês e tenho sofrido por fazer todos os dias almoço apenas pra mim.
Um mês e todas aquelas coisas que antes pareciam ser insignificantes, se tornaram o motivo da minha angústia diária.
Um mês e a única coisa que sinto é a chuva dentro de mim.
Nunca esperei que ter saído naquela madrugada ia doer tanto. Eu queria ter mais tempo. Queria ter entendido mais, compreendido mais. Amado mais.
Desculpa.
03/05/2014
Pista de pouso, amém.
Nesses dias, apesar de toda turbulência
pela qual nossa aeronave atravessou, acho que a pressão diminuiu e podemos,
enfim seguir adiante.
E nesses dias
também, andava perdendo palavras a esmo no limbo da existência enquanto as
mesmas precisavam estar em uma folha, num papel, numa tela. Mas não eram as
dificuldades que me impediam de expelir manualmente todo sentimento que costuma
existir nesse pequeno pedaço de ser que sou. Eram as alegrias, a falta de
oxigênio motivada por um milhão de risos novos e diferentes a cada dia que me
amarravam a não querer espalhar todo coração. Dizem que quando a felicidade é
muita, ela é boa quietinha, calminha e que gritá-la aos quatros traz mal
agouro. Por isso de tanto receio. Insegura que sou, quis manter toda a proteção
perto de mim, de ti, de nós.
Acho que depois de
todo esse tempo, não é mais pecado querer dizer todo o bem que me faz a tua
presença, a tua existência, as tuas charadas com pontinhos
que não tem sentido e nem graça, mas mesmo assim são as coisas mais
bem elaboradas das quais eu já ri. Não, acho que as tuas caretas vencem. Ou o
pombo que tira da cartola quando, em ataque, eu recuo. Tu tem magias que a
própria magia desconhece. E mesmo em silêncio, dizes tudo e nada.
Sinto por não
conseguir ser mais que sou e por querer sempre te preservar intacto, indolor.
Sabe, pequeno, todos os meus erros sempre foram tentando acertar, mas meu
comportamento desastradamente destrambelhado leva tudo pro final mais engraçado
e diferente do planejado. E tu compreende que válida é a tentativa, então não e
repreende, não me julga. E isso, acho, que meu nível espiritual nunca vai
conseguir alcançar. Essa paz de que existe o amanhã pra tentar de novo, existe
um outro amanhecer pra acreditar. Por vezes, tenho a impressão que me agarro
tanto em ti que machuca. É que esse pra mim é um mundo tão novo, tão limpinho,
que eu preciso conhecer como é que se vive aqui. E é um lugar quentinho...
talvez o inverno não nos encontre aqui. Certeza que não.
09/02/2014
A Novidade das Palavras Repetidas
Nada é pra já. E se irritar com a lentidão das horas só traz rugas. Melhor é ir andando calmo pelas ruas que brilham em neon. Aprendi que não se deve subestimar a vida e nem superestimar o destino. Esses dois são as crianças mais travessas do conto de fadas de todo bom ser humano. Conto de fadas sim! Cada um tem o seu, seja emprego, amor ou moradia. Conto de fadas é aquilo em que acreditamos, naquela louca verdade só nossa.
O que pintar, eu assino. Não sei onde li, mas concordo. Parei de tentar correr contra a marcha e tô querendo encontrar meu recanto de paz. Verdade seja dita, minha paz e acalento existem desde sempre. Dentro de mim. Mas a cada novo dia, a cada amanhecer calorento de fevereiro, tenho sorrido mais bonito por saber que esse meu recanto também é recanto de outrem.
A pressa não é amiga e andar aos tropicões te leva ao chão. Nenhuma novidade, mas sempre existe alguém que precisa ouvir isso. Não é feio cair. Feio é não aceitar levar a vida com a alma tranquila. Com o coração em paz com a razão.
Quando se descobre isso, você muda. E ao redor de você, o mundo muda também.
20/12/2013
Pequeno Som
Quando a porta abria, meu Deus, eu pulava em seu pescoço. Que saudade! Seu cheiro era melhor em você no que no seu travesseiro, era mais vivo, mais forte. Muito muito mais gostoso. Mas nada comparado quando eu deitava na sua cama e você me coçava a barriga e me fazia tantos e muitos carinhos. Como eu gostava de dormir com você!
Mas um dia eu esperei e você não chegou. Não entendi. Deu sete, oito, nove e você não apareceu. Veio só uma senhora dizendo que eu não podia mais ficar na sua casa. Por quê isso? Eu andava tão quietinha ultimamente, por que eu tinha que sair da casa que agora era minha também. Ela me disse umas palavras estranhas como céu, chão e fim. Não entendi qual a ligação delas e o que elas tinha a ver comigo.
Quando dei por mim, estava outra vez na rua. Outra vez sozinha, passando frio. Agora eu tenho medo de novo. Você me deixava tão segura, enquanto deixava eu aquecer seus pés a noite. Sinto a falta do seu perfume. Por que você sumiu? Por que me abandonou?
Por que me fazer ser mais uma nesse mundo cão?
19/12/2013
Poematemática.
Sobre as coisas que eu não sei
Lembro de todas as coisas que antes esqueci
Erros, acertos e fugas
Uma hora talvez
Volte
Então enquanto espero
Vejo as pombas voarem
Vejo os bêbados passarem
Vejo as crianças correrem
Todos eles
Então corro, rápido
Longe demais, pras capitais
Deixando
Apenas
Pó.
Lembro de todas as coisas que antes esqueci
Erros, acertos e fugas
Uma hora talvez
Volte
Então enquanto espero
Vejo as pombas voarem
Vejo os bêbados passarem
Vejo as crianças correrem
Todos eles
Então corro, rápido
Longe demais, pras capitais
Deixando
Apenas
Pó.
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